CEM ANOS DE MARILYN MONROE (Norma Jean Baker - Los Angeles, California Junho 1, 1926)
Voltar a Marilyn Monroe aos 100 anos é voltar a um mistério
Por:
Ana Claudia Paixão (via Miscelana)
Ao
longo dos anos, fosse em junho ou não, voltei mais de uma vez à história de
Marilyn Monroe, entrevistando curadores, autores e fãs em diferentes
oportunidades. Chegar ao marco centenário de seu nascimento é um pouco
emocionante porque, embora tenha sido retratada, analisada e revisitada quase à
exaustão, tanto Marilyn Monroe quanto Norma Jeane continuam sendo um mistério
para todas as gerações de admiradores.
Sempre
achei curioso ter me tornado admiradora de uma atriz que já era ídolo das
minhas avós. Mais curioso ainda é perceber que millennials e até gerações mais
novas continuam fascinados por ela. Isso me faz pensar que talvez exista uma
ironia inevitável em Marilyn: justamente a artista desprezada por parte da
crítica de sua época, manipulada pelos estúdios, subestimada intelectualmente,
abusada em suas relações e encontrada morta, sozinha, aos 36 anos, tenha se
tornado uma das únicas estrelas verdadeiramente eternas do cinema mundial. Vou
dizer sem exagero: não vejo nenhuma outra sobrevivendo como ela. O rosto de
Marilyn Monroe talvez seja o símbolo máximo de Hollywood.
E
isso não aconteceu porque ela viveu uma trajetória triunfante. Pelo contrário.
Marilyn sabia que tinha o amor incondicional do público, mas o que desejava
desesperadamente era o respeito de colegas, diretores e colaboradores, algo que
nunca encontrou plenamente em vida. Quando morreu, em agosto de 1962, era
tratada por parte da indústria como problemática, instável, atrasada e
ultrapassada. Tinha poucos amigos próximos e atravessava uma encruzilhada
pessoal e profissional extremamente dolorosa. Sim, existem inúmeras teorias
conspiratórias sobre sua morte repentina, mas qualquer pessoa que conheça
minimamente sua biografia entende que sua vida foi marcada por abandono,
solidão e sofrimento desde muito antes da fama. Em alguns momentos, é difícil
não pensar que Norma Jeane talvez estivesse apenas cansada.
Porque,
quando falamos de Marilyn Monroe em 2026, no ano em que completaria 100 anos,
estamos inevitavelmente falando também de Norma Jeane Mortenson: a menina que
nunca soube exatamente quem era seu pai, que mal conviveu com a mãe — internada
em instituições psiquiátricas e diagnosticada na época como esquizofrênica —,
que passou por orfanatos, famílias adotivas abusivas, casamentos fracassados e
relações amorosas frequentemente atravessadas por dor, dependência emocional e
abandono.
Em
2010, escrevi uma matéria sobre Fragmentos, livro lançado com poemas, cartas,
anotações e materiais íntimos deixados pela atriz. A obra nasceu de um acaso
quase cinematográfico: após a morte de Marilyn, em 1962, boa parte de seus
pertences pessoais ficou guardada em caixas trancadas por Lee Strasberg, mentor
da atriz no Actors Studio. Décadas depois, quando Anna Strasberg encontrou esse
material, percebeu imediatamente que havia algo muito mais profundo ali do que
simples memorabilia de Hollywood.
Na
época, conversei com Bernard Comment, escritor suíço responsável pela edição
europeia do projeto, que me disse algo que nunca esqueci: "Até hoje,
sempre vimos Marilyn de fora para dentro, sob a percepção do público ou dos
amigos. Com este livro, podemos vê-la ao contrário: como ela se via e como via
os outros." E talvez fosse exatamente isso que tornasse Fragmentos tão
sensível e fascinante. O livro desmontava a caricatura da "loira
ingênua" porque permitia ouvir, pela primeira vez para muitos leitores, a
própria voz de Norma Jeane, insegura, inteligente, melancólica, frequentemente
solitária e muito mais consciente de si mesma do que Hollywood permitiu
enxergar.
Talvez
por isso seja tão emocionante conversar agora, em 2026, com a curadora da
mostra Marilyn Monroe: Hollywood Icon, do Academy Museum, em Los Angeles,
aquela que considero a principal homenagem já feita à atriz. Existe algo
profundamente simbólico no fato de Marilyn — que compareceu a apenas uma
cerimônia do Oscar em toda sua vida, e apenas como apresentadora — finalmente
receber uma grande celebração institucional da própria indústria que tantas
vezes a rejeitou. Ela nunca foi indicada ao Oscar. Nunca recebeu uma homenagem
póstuma da Academia. E, ainda assim, segue sendo um dos rostos mais
reconhecidos do planeta mais de seis décadas após sua morte.
A
exposição do Academy Museum tenta justamente corrigir parte dessa distorção
histórica ao destacar Marilyn não apenas como mito, mas como artista. Em vez de
reduzir sua trajetória ao vestido branco esvoaçante ou à persona sensual
construída pelos estúdios, a mostra enfatiza seu rigor profissional, sua
obsessão por aperfeiçoamento, sua consciência sobre imagem e o esforço
constante para ser levada a sério em uma indústria que frequentemente lucrava
com sua vulnerabilidade enquanto ridicularizava suas inseguranças.
"Acho
importante que as pessoas entendam Marilyn como alguém que estava profundamente
envolvida na construção da própria carreira", explica a curadora da
exposição. "Ela estudava atuação, observava enquadramentos, discutia
figurino, iluminação, fotografia. Existia uma artista extremamente consciente
ali."
Talvez
seja justamente isso que continue fascinando tantas gerações. Marilyn Monroe
nunca foi apenas uma estrela. Ela foi uma mulher tentando sobreviver à própria
transformação em símbolo. E talvez nenhum outro rosto da cultura pop represente
tão bem o encontro entre fantasia e tragédia que Hollywood vendeu ao mundo ao
longo do século 20.
















































































































































👏👏👏👏
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