O DISCO DE CABECEIRA DE LEANDRO RODRIGUES: ERASMO CARLOS E OS TREMENDÕES


ERASMO CARLOS E OS TREMENDÕES 

(ERASMO CARLOS 1970 RGE)

 

Em 1968, sufocada pela repetição e posta em xeque pelas inovações tropicalistas, a Jovem Guarda chegava ao fim. Roberto Carlos, quando percebeu que a fórmula havia se esgotado e os dias de glória do programa/movimento havia ficado pra trás, saiu em busca de novos rumos: deixou o programa, aproximou seu som do soul e das baladonas italianas, se consagrou em San Remo e seguiu para uma nova etapa; Erasmo Carlos e Wanderléa ainda tentaram, sem sucesso, tocar o barco por mais alguns meses, mas acabaram sucumbindo. E, diferente do parceiro, o Tremendão não enxergou a mudança com naturalidade. Perdido com o fim da festa de arromba, que ele pensava que iria durar pra sempre,  ficou na beira do caminho durante algum tempo, amargando a alteração dos ventos, até que, renovado pelas novas influências que começava a assimilar e disposto a se entregar a diferentes experiências musicais, o roqueiro disse adeus aos tempos juvenis de iê iê iê e voltou para o Rio de Janeiro (encorajado por “Aquele Abraço” de Gilberto Gil) para dar a volta por cima. Foi assim que surgiu o subestimado álbum de ruptura “Erasmo Carlos e os Tremendões”, gravado em 1969 e lançado no início de 70.

 

“Desconfio que eu estou detendo o progresso, estou dez anos atrasado”, inicia Erasmo cantando no samba- rock de abertura ,“Estou Dez Anos Atrasado”, parceria com Roberto,  faixa que abre o disco mostrando, logo no início, o clima de mudança que se instalava, com  o refrão, repetindo várias vezes o título, deixando claro como ele via sua obra em relação aos novos rumos da música brasileira, com a explosão tropicalista, o surgimento da samba-rock e a estética pop mineira. A letra inclusive recebeu elogios do pessoal do "Pasquim", pelas críticas ao conservadorismo comportamental na qual estava alicerçada a ditadura vigente e ela foi incluída, anos depois, no show/DVD  “Meus Lados B”, onde comemorando seus 50 anos de carreira fonográfica, ele apresentou músicas desconhecidas de seu repertório, mas que figuravam entre as suas preferidas .

 

Em seguida, um baixo gorduroso comanda o groove do rock funk “Gloriosa”, com letra do então iniciante Vitor Martins, e uma inusitada guitarra com fuzz dando as caras no final. A triste “Espuma Congelada”, do obscuro baiano Piti, que também ganharia uma gravação de Clara Nunes, chega cheia de lirismo e psicodelia, com mudanças de andamento e um solo jazzy de piano. “Vou pra Bahia, vou pra Salvador", canta o quase baiano roqueiro carioca em meio a um psicodélico arranjo do grande maestro Chiquinho de Moraes, claramente inspirado nos beatlemaníacos arranjos tropicalistas. O clima de despedida segue em 3 por 4, com a valsinha  “Teletema”, uma das muitas pérolas do pianista Antonio Adolfo em parceria com Tibério Gaspar (a primeira canção composta para uma terlenovela – “Véu de Noiva”), lançada em 1969 pela cantora Regininha. “Em cada curva, sem ter você, vou mais só”, canta, gilbertinianamente, o amadurecido cantor, acompanhado por um belo piano elétrico, delicada orquestração e ótimas harmonias vocais. Licks funky de guitarra, groove de baixo, bateria síncopada rolam solto, e entra em cena "Jeep", que marca a  troca dos carrões da boa vida de playboy da Jovem Guarda por um jeep sem capota dos bichos-grilos cariocas, em mais um letra de Vitor Martins, cantada de forma narrativa pelo Tremendão, que vai acelerando a velocidade conforme o veículo, num engenhoso samba-rock soul, com o teclado emulando som de buzina e uma guitarra distorcida solando no final.

 

O som do hammond de Lafayette - instrumento cuja sonoridade tornou-se símbolo da Jovem Guarda depois que Erasmo e o organista mais famoso do país se depararam com ele no estúdio na gravação do seu primeiro compacto -  marca a inconfundível introdução de uma das canções mais bem sucedidas da parceria Roberto/Erasmo: “Sentado à Beira do Caminho”. Com uma estrutura simples, que se repete por toda canção, inspirada em “Honey”, de Bobby Russell, metais executando fraseados de bolero, a música, que foi gravada também com retumbante sucesso em espanhol e italiano, e uma letra que narra, de forma metafórica, o término da Jovem Guarda e a desilusão do cantor perante o fim do sonho. O refrão da canção (Preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo), inclusive, foi concebido por Roberto Carlos durante um cochilo, enquanto eles a compunham. Lançada em compacto meses antes do álbum, logo se tornou um enorme hit, entrou para a trilha da novela “Beto Rockfeller”, entre outras trilhas (inclusive do blockbuster de Hollywood “Doze homens e outro segredo”, mais de trinta anos depois), colocando Erasmo de volta ao topo das paradas, tornando-se presença obrigatória em suas apresentações.

 

Violão á lá Jorge Ben,  cuíca, tamborim e o Lado B inicia-se com “Coqueiro Verde”, um samba-rock de arrasar (embora creditado a dupla Roberto/Erasmo foi composto somente por Erasmo), que marca a volta do compositor ao Rio de Janeiro e homenageia sua noiva Narinha e símbolos da cidade maravilhosa da época ( a atriz Leila Diniz, o tabloide “O Pasquim” e a boate “Le Beateau”). Mais um sucesso. Mais uma canção emblemática da sua carreira. “Saudosismo”, de Caetano Veloso, aparece a seguir, firmando de vez o casamento do jovem-guardista com o tropicalismo e a MPB. “Eu, você, João, girando na vitrola sem parar”, canta com voz dobrada aquele que, anos antes, em suas correspondências para o amigo Tim Maia, assinava Erasmo Gilberto, sob mais um belo arranjo de Chiquinho de Moraes. A letra faz referências a clássicos da bossa, àquela altura nem tão nova assim, e homenageia seu grande mestre João Gilberto (“Melhor que ele, pra mim, só o Elvis”, escreveu Erasmo em sua autobiografia), terminando com a expressão "Chega de Saudade", enquanto a orquestra de Chiquinho de Moraes toca um trecho da "Cavalleria Rusticana", de Mascagni, dando à gravação um contorno erudito.

 

Surpreendendo ainda mais, a seguir Erasmo lança mão de uma inusitada versão samba-rock, com metais soul, de “Aquarela do Brasil”, cantada de forma intimista, sem a grandiosidade na qual esse samba-exaltação sempre esteve envolvido, numa bem sacada desconstrução . A instrumental “A bronca da Galinha (Porque viu o galo com outra) “ é mais um soul arrasa quarteirão, no melhor estilo Tim Maia, cheia de metais, palmas, teclado, cozinha sincopada e “Hey!”. O álbum se encerra com a balada pop de orquestração cinematográfica “Vou Ficar Nu Pra Chamar Sua Atenção”, feita às pressas com o amigo para ser um clipe no filme “Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa” (que seria o filme mais assistido no Brasil em 1970), gravada, inclusive, com o Tremendão gripado. Mais um sucesso nas paradas, motivado pela aparição no filme (com Erasmo fazendo um quase strip tease durante a sua apresentação), a canção gerou algumas críticas dos conservadores pelo seu título. Alguns anos depois, já na sua fase Las Vegas, um comportado Roberto Carlos a regravaria com o título de “Preciso Chamar Sua Atenção” e trocaria a última frase (“Vou acabar ficando nu pra chamar sua atenção”) por um tímido “Só me falta ficar nu pra chamar sua atenção”.

 

Último disco gravado pela RGE e com uma capa que traz certa semelhança com o estupendo disco que o amigo Roberto havia acabado de lançar, no final de 1969, que também marcou o rompimento definitivo da parceiro com o "som da Jovem Guarda", o tropicalista  “Erasmo Carlos e Os Tremendões” marca a virada do artista de popstar do iê iê iê para um estilo mais amadurecido e antenado. No ano seguinte, assinaria contrato com a Phillips e, com liberdade total para gravar o que quisesse, faria o lendário “Carlos, Erasmo” e daria seguimento a essa chamada “fase hippie”, com uma série de álbuns espetaculares que o colocariam definitivamente entre os grandes nomes da nossa música popular. O gentil e indestrutível Gigante do rock brasileiro.

 

Esteja em paz

 

Leandro Rodrigues 

(jornalista, historiador e pesquisador musical)



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