MAIS ESCURO: AS ARTES DAS CAPAS DOS LPS DE LEONARD COHEN (por Itamar Alves)

 


Leonard Cohen lançou a última coleção de canções originais, “You Want It Darker”, em 2016, fechando seu ciclo na cultura popular. O cantor encontrava-se em estado de saúde terminal, que foi debatido ostensivamente nas entrevistas de divulgação. Morte e sexo talvez sejam os temas principais de suas canções, e era o próprio fim que Cohen contemplava. Esteticamente, pode-se notar uma contiguidade de ideias nas artes de seus discos, em especial a série que vai de “Old Ideas”, de 2012, ao derradeiro. Como fez desde a estreia em 1967, Cohen aparece encarando sem rodeios aquilo que tem que enfrentar.

 

Capas de discos ganharam importância cultural com a massificação do “long play”(LP), expansão do número de canções a serem comercializadas em um único produto. Se na literatura o romance do século XIX significou a possibilidade de encadeamento de múltiplos personagens em um único arco, a indústria fonográfica mimetizou o mesmo processo através do LP, após a Segunda Guerra Mundial. Gradualmente, a embalagem de discos passou a influenciar os sentidos sonoro-narrativos gravados. Não por acaso, ilustradores e fotógrafos tornaram-se famosos por confeccionarem uma aura própria em seus trabalhos para músicos. 

“Songs of Leonard Cohen”, de 1967, brinca com a ideia da capa como abertura de sentidos para consumidores. Em uma espécie de divisão kafkiana entre enredo e narração, há um descolamento do visível (a arte do álbum) com o invisível (as canções). O cantor canadense apresentou o fantástico de suas composições em uma polaróide duramente realista, do mesmo modo que o escritor tcheco passou a narrar as desventuras de Gregor Samsa após o choque inicial da metamorfose. A ilustração na contracapa, uma figura mexicana aparentada à de Joana D’Arc, indicava que havia um inseto na cama, mas os simbolismos não eram ostensivos para o público casual, quem, por sua vez, era objeto do olhar fixo do cantor, configurando um curto-circuito entre quem introduzia o quê, na relação entre arte e observador. 


Grande parte da arte de capa dos discos subsequentes de Cohen são fotos frontais do músico, com algumas variantes. A de “I’m Your Man” (1988) é antológica: o compositor de óculos escuros, flagrado da cintura para cima, segurando uma banana. Novamente, a ironia em preto e branco da imagem — tremendo humor judeu na linha Woody Allen — pouco dava bandeira daquilo que o disco realmente continha: uma crônica multifacetada sobre a passagem do milênio. Leonard Cohen parecia nunca se cansar de projetar sempre o mínimo possível de suas intensas fantasmagorias sonoras no campo visual. 

“Old Ideas”, de 2012, trouxe uma tríade conceitual final às capas de seus discos, finalmente com um aceno para o fantástico. Desta vez, a foto é de corpo total do compositor, sentado em uma cadeira de jardim. Pode-se ver a sombra de quem o está fotografando, aparentemente uma figura feminina. Entretanto, não está claro se o que se vê é uma sombra, de vez que há uma duplicata avermelhada desta. Se paralelismos resolvem a questão, então a cor vermelha seria a sombra da figura negra. A situação introduziria o primeiro personagem fantástico numa capa de disco de Leonard Cohen. 

A arte de “Popular Problems”, de 2014, continua na mesma toada: Cohen, trajado de modo praticamente idêntico à imagem do disco anterior, e a figura negra com sua sombra vermelha. Desta vez, entretanto, eles não aparentam dialogar. A figura parece perseguir o cantor, o que empresta uma atmosfera lynchiana ao caso todo. A matiz de fundo é uma divisória branca e amarela, com as sombras de ambos os personagens dispostas em campos opostos. A capa parece sugerir que a figura negra insinua-se no espaço do compositor, mesmo que seu campo branco seja maior que o de Cohen, que transita em ambos. 

“You Want It Darker”, de 2016, fecha a tríade. Vestido da mesma forma, Cohen está sentado no espaço branco da arte do disco anterior, mas, agora, este não é o campo principal do que é visto. Ele olha através de uma janela para uma escuridão, a qual pode ser “o interior” da figura negra. Desta vez não há sombras, e a ironia vem com tudo: óculos de sol para encarar o negrume final. Cohen retoma o olhar duro para seu objeto relacional, do mesmo modo que nos fitava na capa do primeiro disco. O detalhe de segurar um cigarro — a parte de seu corpo que adentra o campo escuro — converge com o tom da música-título, de que não vai haver remorsos ou penitências pelo que se está apresentando, seja a humanidade rumando para o apocalipse, ou o cantor indo ao encontro de sua nêmesis negra. Como em 1967, Cohen não pede licença para a aproximação.

 

Morte e sexo foram os temas principais de Leonard Cohen, raramente de um ponto de vista individualista. A humanidade como um todo foi sua musa. Relacionava-se com seu público nunca demonstrando o óbvio, utilizando o realismo estético de maneira desestabilizadora, profissão de fé estampada em suas capas de discos. No mundo possivelmente pós-humano e maquínico que o novo século aponta, talvez não haja espaço para o tipo de relação imagética articulada pelo compositor. A escuridão que ele encara em “You Want It Darker”, no entanto, deve ecoar ainda por muito tempo.



Itamar Alves nasceu no Recife há quase 50 anos, vive no Guarujá e é um dos provocadores mais brilhantes que já conheci. Mas sou suspeito para afirmar disso. Julguem por sí próprios acompanhando os textos que Itamar envia para LEVA UM CASAQUINHO.




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