Saturday, May 18, 2019

REQUIEM PARA MÁRCIO CALAFIORI (parte 2)




UM POEMA PÓSTUMO COM O CRIVO DO HOMENAGEADO
(por Alex Sakai)

O poema a seguir foi escrito para Márcio Calafiori em 2009, quando me disseram q ele tinha falecido. Aí eu soube que era tudo mentira e mandei o poema pra ele. Ele revisou as rimas e me devolveu o poema. Foi a primeira vez em que um poema póstumo foi revisado pelo defunto. 



NOITE FRIA DA ALMA
(para Márcio Calafiori)                                                                 

As noites frias da ilha
São tempo de desalento e solidão.
O silêncio entre as vagas,
Voltando ao continente,
São suplícios de insone calar.
Nada dos telúricos meneios de outrora.
Nenhum sonho, por baço ou baixo,
A ressoar seu nume como uma clarabóia.
Apenas o pêndulo oscilante da memória,
Inexorável, marcando o tempo da morte do anjo da juventude.
As rugas fatais ocultando lentamente
A beleza juvenil
Em sua teia de eras.
As lágrimas já secas. O ventre murcho.. A volúpia calada...

Se és pó ao pó deves voltar.
Se lama na lama deves ficar.
Se tu és lamento um só ai
E desvaneces num átimo.

Procures lentamente por teu verdadeiro ser.
Além da matéria efêmera,
É a casa da esperança
Q tudo renova em sua luz,
Restaurando eternidades
E clareando consciências.
Não é nas plagas do mundo
Q encontrarás teu verdadeiro Eu.
Não é nas fendas amargas da existência
Q reside teu espírito.
Além da matéria densa
É Q existe a vida intensa
Q em vão procuraste em teus descaminhos
Nessa terra estéril de onde viestes.
É no interior silencioso
Na sublime vacuidade dos egos
Q a Paz suprema cresce
E o Amor verdadeiro,
Q nada tem
Nem quer possuir,
Q a tudo envolve
Com seu manto cósmico
Irradia
Dia
A
Dia
A suave luz espiritual
Q
te redimes

Então teu espírito finalmente sorri
Vibrando em uníssono com as esferas
A música
Q extermina quimeras e tormentos
O Amor Q move o sol
E o firmamento.    


CALAFIORI E O SANDUÍCHE DE QUINTA-FEIRA
(por Marcus Vinicius Batista)

A última conversa aconteceu há três dias. Ele me convidou para um café que, na verdade, viraria lanche às cinco da tarde da próxima quinta-feira. Um sanduíche de queijo branco, provavelmente acompanhado por presunto. Como bebida, suco de uva integral.

Ele me avisou que me daria alguns livros, o que sempre acontecia em nossos encontros, na casa dele. Da última vez, ele me deu Joyland, de Stephen King. Preferia os contos do escritor norte-americano aos romances. “Ele, às vezes, escreve demais.” Pegou emprestado um romance policial, que pertencia a um amigo comum, o André Rittes.

Aprendi com Calafiori a ideia de que livros devem circular e que só se mantém vivos se passarem de mão em mão. Livros, também, salvam as contas em meses muito apertados. Ele me reapresentou o Américo, um colega de futebol e hoje comerciante de livros usados.

Encontrei Márcio Calafiori há cerca de um mês. Ele estava cerca de 20 quilos mais magro, disciplinado com a diabetes e preocupado com as sessões de hemodiálise. Colocaria uma fístula no braço direito, dois dias depois. Pelas razões colocadas acima mais a minha mudança no estilo de vida também por causa da diabetes, a saúde ocupou muito tempo da nossa conversa.

Como eu havia feito estágio numa clínica de Nefrologia, acompanhando pacientes em hemodiálise, a terminologia parecia integrar um papo cotidiano. Ele me falava da necessidade de transplante, dos remédios, discutíamos custos, dietas, horário para a aplicação de insulina e nossos excessos do passado.

Inevitavelmente, desviamos o assunto e fomos para a literatura e para o jornalismo, temas de sempre que nos levaram à sala de aula por cinco anos na Universidade Santa Cecília, até que Márcio se aposentou. A universidade, onde nos conhecemos no começo da década passada, era pauta antes dos almoços, agora dos lanches de final de tarde. Tivemos que trocar o macarrão italiano legítimo e a linguiça de primeira com molho de tomate importado pelo sanduíche natural. Márcio fazia macarrão demais e me obrigava a levar quase meio pacote para casa. Presente para Beth, ele dizia.

Márcio Calafiori foi um dos melhores professores e jornalistas que conheci. Um dos três melhores textos, sem dúvida. Era um jornalista à moda antiga, daqueles que – até na semana passada – andam com um bloquinho de anotações. As pequenas histórias, os grandes diálogos da rua agora povoavam suas postagens no Facebook. Ou invadiam seus contos, em fase de preparação, sonhando com um livro em breve.

Como jornalista do século passado, Márcio era um boêmio, um homem de excessos noturnos. Cansei de acompanhá-lo no restaurante Cook’s, no Supercentro Boqueirão, depois que dávamos as aulas de Leitura e Produção de Textos. Ele, uma porção e uma cerveja. Eu, um misto quente e uma, duas latas de Pepsi. Conversávamos por uma hora e meia, duas horas, até que ele me convencia a pegar carona de táxi. “Márcio, eu moro a um quilômetro. Vou a pé.” “Malandro, vamos embora”, era a resposta.

Márcio nunca destratava ninguém, mas era de uma honestidade intelectual rigorosa. Não poupava palavras para expor críticas e propor soluções. Aproximava o rosto da tela do computador e trabalhava um texto palavra por palavra. Um ourives de lentes aumentadas diante da joia em lapidação. Ou da eminência de descobrir que se tratava de uma pedra sem valor.

No nosso último encontro, dei a ele meu último livro de presente. Márcio não ia aos lançamentos. Não gostava do que chamava de Tertúlias, uma piada que nos divertia sempre. Márcio teceu elogios calorosos à edição feita por Beth e à ilustrações do DaCosta. “Ele está cada vez melhor. Gênio.” Não sei Calafiori leu meus textos e diria suas opiniões na próxima quinta-feira. Levarei essa curiosidade comigo. Por outro lado, ele gostou dos textos iniciais do blog que abriga essa homenagem. A opinião verdadeira dele era um presente.

Márcio estava muito contente. Estava casado com Regina, a “companheira para o final da vida”, nas palavras dele. Fez questão de me contar como haviam se conhecido – história que se esquecera de relatar em outras ocasiões – e da gafe que cometera no primeiro dia. Contava a história, colocava a mão na barriga e gargalhava jogando a cabeça para trás, como sempre fazia, seguido de um “Malandroooo!”. A satisfação também vinha do livro do pai, recém-publicado e editado por Beth.

Combinamos, diante das nossas semelhanças em proporções diferentes de diabéticos, de nos encontrarmos todos os meses. Colocar a conversa em dia. Falar sobre Jornalismo e Literatura. Trocar livros. Relembrar histórias juntos. Dividir nossos escritos.

Seria na próxima quinta-feira, às 17 horas. Um lanche, duas horas de conversa, depois eu partiria para dar aula. Na última vez, fez questão de me levar até a esquina para prolongar a conversa. Nos despedimos com um abraço fraterno.

Na quinta-feira, Márcio, neste horário, farei um lanche em sua homenagem. Muito obrigado pela amizade. Desculpe-me pelas lágrimas. Um abraço, Malandro!


A DICA DO CALAFA

(por Marcelo Rayel Correggiari)

O grande jornalista Sérgio Cabral (17 de maio de 1937, Cascadura, Rio de Janeiro) tinha um hábito bastante peculiar, quando “foca”, toda vez que conseguia escapar do segundo clichê, saía da redação e passava na casa do grande mestre Pixinguinha.

Tiro-e-queda: além de gozar das grandes amizades e de uma música excelente, dessa dos grandes compositores, tinha em primeira-mão notícias do meio musical que fatalmente o colocavam como o grande destaque da redação no dia seguinte, sempre com as suas novas “mais quentes”.

Se alguém quisesse saber do que rolaria no meio musical do Rio nos anos 1950, o nome era o de Sérgio Cabral. Com amigos(as) dessa envergadura, não tardou em se tornar compositor e pesquisador de música e cultura popular.

Um dia, indagado sobre o porquê não se faziam mais jornalistas como antigamente, Cabral foi taxativo: “Jornalista tem de se enriquecer culturalmente, sempre! Jornalista não pode ficar preso em redação... jornalista tem de andar na rua!”.

Essa renomada revista, a Leva um Casaquinho, tomou seu segundo duríssimo golpe: em menos de seis meses, após o desaparecimento de Álvaro de Carvalho Jr., não está mais entre nós o queridíssimo e já saudoso Márcio Calafiori.

Somados à recente passagem do eterno Alfredo Monte, há de se apontar que a coisa vem andando para trás, em termos locais, regionais, a passos gigantescamente largos. Sinceramente, fico ressabiado se realmente temos peças de reposição à altura.

Os grandes mestres já não estão mais entre nós para suas visões, aconselhamentos, dicas, todas elas, acima de tudo, para o enriquecimento tanto dos críticos quanto da plateia.

Isso tem um custo caro lá na frente, hein?!

Márcio Calafiori não formou duas gerações de jornalistas, como andam dizendo: foram três! Muito do jornalismo regional e nacional teve a influência da forma de se fazer jornalismo protagonizada pelo querido Calafa.

Pelas manifestações referentes à sua passagem no último domingo, foram três as gerações que chegaram ao mundo pelas mãos do querido mestre.

Profissionais que estão na lida, na luta, representando a atividade com galhardia, feito à fidalguia inerente ao estimadíssimo Márcio Calafiori. Jornalistas engajados, que não baixam a cabeça para a primeira aberração que pinta na área. Gente que herdou do mestre o finíssimo paladar requintado pelas Artes a fim de se enriquecerem como pessoas, como jornalistas, como pupilos atentos contra tudo aquilo que vem em nossa direção para nos desestabilizar.

O mestre rigoroso e generoso, um homem que talvez não admitisse colegas de profissão e de ensino, na Universidade Santa Cecília, que apreciassem (ou flertassem com) o abjeto. Com a velocidade de leitura semelhante a de se beber um cópo d’água num dia de grande sede, essa Mercearia passava perrengue: “Ah! Vamos escrever qualquer coisa... ninguém vai ler, mesmo!”.

“Rapááá...!”. Saía a postagem semanal da revista e lá estavam os comentários dele logo abaixo. Era bom não vacilar com essa de que “... ninguém vai ler”. Ele lia!

Além, obviamente, de sua sempre brilhante participação nessa revista com o “Canto de Página” e os inesquecíveis “Conto Mínimo”. Como já dito aqui, um jornalista ligado às Artes (com algum especial relevo do cinema) cuja participação nessa publicação eletrônica justamente se dava sobre o caráter sensível, artístico e poético com o qual traduzia a vida.

Uma das grandes dicas do Calafa: o enriquecimento, independente de qual profissão você exerça! Não seja “teba”, “mocorongo”, “détraqué”, perdido(a) nas costumeiras “ambições míopes” que parecem ter se tornado um enxame nos dias de hoje.

Márcio Calafiori é pela vida. A vida, com seus bons desencontros, esses de ‘ficar sem rumo’, mas que fornecem grandes canções e poesias. Grande cronista, sim, mas sem perder a veia do lírico, do poético, daquilo que constitui a vida.

Advindo da escola dos grandes jornalistas, como Sérgio Cabral, sua outra grande dica de ouro: jornalista é para andar na rua! Se o jornal é o encontro das grandes & boas histórias “de uma aldeia”, não faz muito sentido jornalista na frente do computador.

Jornalismo é profissão de se andar pelas ruas. Sem isso, o(a) leitor(a) fica sem as boas & grandes histórias. Dica do Calafa: máquina de escrever (hoje em dia, computador, tablet, celular, sei lá... essas frescuras) é só para materializá-las (as histórias). Viver é na rua! Cinema, cerveja, teatro, show, beijo, luar, restaurante, exposição, festa, bar, abraço, tertúlias, dramas, festival, colóquio, cachaça, tragédia, riso, encontro, lágrima, chegada, café, desavença, literatura, desencontro, dança, partida, tudo isso é na rua!

Sem “a vida” (essa que acontece nas ruas) não há grandes jornais.

Grande dica, essa, a do Calafa, hein?!

O mestre segue em novo ciclo. Deixou o corpo para povoar e existir em nosso inconsciente, como fizeram Narciso de Andrade, Plínio Marcos, José Antônio Rezende de Almeida Prado, Roldão Mendes Rosa, Patrícia Galvão, Gilberto Mendes, Lydia Federici, Alfredo Monte, Nelson Salazar Marquez, Maritns Fontes, entre tantos(as).
  
Saudade eterna... ausência sentida. Ainda sem chão. Uma angustiante sensação, nesse momento, de que ainda não sabemos muito bem o que fazer.

BEIJOS BEIJOS BEIJOS
(por Juliana Rosano)

Era o meu último ano no Jornalismo da Unisanta e foi o primeiro dele como professor na universidade. 1999. As minhas lembranças daquela época são mais bem nebulosas, portanto algum detalhe pode escapar.

Fui com a cara dele desde o começo. Sujeito bonachão. Eu, uma jovem com aspirações literárias, com uma fascinação pelo underground. Não demorou para ele se juntar ao grupo “dos malditos” da turma de Jornalismo. Sempre no final das aulas, ele se juntava ao nosso grupo para beber uma. Nas sextas-feiras, esticávamos ao Lanches Praia, ali na esquina da Conselheiro com a Epitácio.

Foram muitas conversas, sempre regadas com muita cerveja. Às vezes batia a aura “lorde falido” dele e tomávamos um Dry Martini. Foi durante esses papos que descobri alguém de gostos refinados e humor ácido. Também foi o meu grande incentivador para que eu continuasse a escrever. Ele foi o primeiro quem leu o meu clássico conto “Delírio de uma Noite Selvagem” e partilhamos a alegria de quando foi publicado na Big Man Internacional. Sinceramente não me lembro de nenhum conselho jornalístico que ele tenha me dado, ele me via mais como uma escritora, do que qualquer outra coisa, e lá no fundo, eu nos via como a Anäis Nin e o Henry Miller do século XXI.

Acredito que um dos seus principais prazeres era presentear livros. Ele me deu três: o primeiro, “Diana Caçadora”, da Marcia Denser, onde ele escreveu algo assim como dedicatória: “para a minha querida Julie Cass, a futura grande escritora...”; o segundo foi o “Porre”, do Peter Benchley e o último, no meu 22º aniversário, um do Bukowski “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”.

Depois, por circunstâncias da vida, nos distanciamos. Eu fui embora do país, voltei e fui embora de novo, acabamos ficando muitos anos sem nos falar. Até que o advento das redes sociais nos reaproximou. Mesmo depois de tantos anos, ele ainda se prestava a ser meu editor pessoal: leu, releu e corrigiu vários textos escritos por mim. Inclusive nos seus “poeminhas de domingo”, ele publicou um poema meu. O último ano nas redes sociais foi marcado por um post infeliz que ele fez, celebrando o aniversário do Roberto Carlos (o cantor). Aí, meu, não teve jeito... O Edu Cavalcanti e eu não perdoamos. A zoeira tomou conta de nossas publicações: ele se metia comigo e com o Edu por a gente gostar de rock e eu e o Edu nos metíamos com ele por ele camuflar o seu gosto pelos RCs (Roberto Carlos e Ray Conniff). Foi um ano prolífico de batalhas verborrágicas; qualquer coisa, fosse um show, uma música, um filme, ou até os bonecos Funko Pop, tudo era motivo de zoeira, que eu rio sozinha quando lembro. Era sempre uma alegria ver como ele comentava, respondia, estava ao tanto de tudo e todos os comentários que os amigos faziam no Facebook. Ainda que, devido às nossas provocações, sempre que eu publicava alguma coisa, ele reagia com uma “carinha enfezada” e vice-versa.

Quando da minha última viagem ao Brasil, em setembro do ano passado, fiz um âmago de um reencontro. Mas ele se negou, dizendo que já não podia beber. O que eu acredito é que ele não queria que as pessoas vissem a gravidade do seu estado. E neste domingo, 12 de Maio tivemos a triste notícia da sua partida.

A minha homenagem para ele vai ser, a partir de agora, ter mais disciplina como escritora. Ele sempre me dizia “se quiser escrever, tem que escrever todos os dias”. E termino essa pequeno relato como ele sempre se despedia de mim: BEIJOS, BEIJOS, BEIJOS


CARAJO MAN
(por Paulo Reda)

Em 2015 fiz uma postagem aqui ilustrada por uma foto minha com o Márcio Calafiori que tinha a seguinte legenda: "Ao Mestre com Carinho". Na verdade, nunca tivemos uma relação de discípulo e mestre, apesar dele ser cerca de oito anos mais velho que eu e ter sido duas vezes meu chefe. Em conversa mais recente assumi minha reverência intelectual e profissional a ele, o que o deixou entre satisfeito e constrangido. Quando o conheci, em 1993, ao assumir a secretaria de redação do extinto e saudoso Diário do Povo, foi a vez dele me constranger, ao me chamar de Paulo Francis Reda em uma reunião com a participação de toda redação. Era uma pequena homenagem, sem dúvida, mas também uma sutil sacanagem bem-humorada, coisa típica do Calafa. A partir dali surgiu uma amizade alicerçada em livros, jazz, boêmia e muitas - muitas mesmo - risadas. Choramos juntos a morte do próprio Francis e do Sinatra nas mesas do Bar Azul. No dia da morte do Sinatra, o Márcio comprou uma biografia que vinha com um cd encartado e passamos o dia na redação do Diário Popular a ouvir os sucessos do Old Blue Eyes, para minha alegria e desespero do pessoal mais jovem que ali trabalhava. Essa é uma das muitas histórias que poderia relembrar do Calafa. Mas agora só desejo manifestar minha profunda admiração e carinho por esse imenso camarada. E encerrar com o brado inventado por ele em uma daquelas tardes inesquecíveis no Diário do Povo: "Carajo Man"!!!!


OI MÁRCIO CALAFIORI, BOM DIA!
(por Márcia Okida)

Oi Márcio Calafiori, bom dia! Que horas e onde a gente se encontra hoje para ir na exposição da Beatriz Rota-Rossi?

Era assim que eu queria que meu dia começasse hoje! Era isso que estava programado! E eu estava tão feliz por isso! Por te ver, por vc sair de casa (era difícil te fazer sair), pq os abraços que te mando sempre virtualmente, te daria pessoalmente.

Mas Márcio, a vida, o destino não quis assim! E este texto que escrevo agora é para você, por isso pode ser textão 🙂 Também é para quem tiver paciência de ler e quiser saber mais de você por outro ângulo, até pq o meu lado é totalmente diferente do da grande maioria: 0% jornalístico \o/ 🙂

Ao invés disso – da pergunta do início do texto – o que tenho pra te contar – e somente hoje porque não tive coragem, nem forças, para escrever sobre você ontem – é que, nossa, nossaaaaaa quanta coisa linda li de você, sobre você e para você. E olha que li, acredito, 90% ou mais das mensagens, comentários etc feitos em sua homenagem nestes dias.

E cheguei à conclusão que nossa amizade era fora da curva, ou fora da caixinha 🙂

Não fui sua aluna! Não sou jornalista! Meu trabalho não é relacionado aos textos – sou designer, das artes e imagens!

Também nunca tive o prazer de sair para beber ou apenas sentar em uma mesa de bar com vc, nunca, como pode isso!!!

Sou sua amiga careta, sua amiga que não bebe nada, nunca fumou nada e nunca usou nada, nada mesmo. A louca por natureza, “vc não precisa Marciaaaa”, vc diria, como já disse algumas vezes! Outra diferença: vc nunca me chamou de “malandroooo” 🙂

Não sei escrever textos lindos, perfeitos, com a profundidade dos textos jornalísticos, das crônicas da vida ou que falam dos seus ensinamentos de uma sala de aula, como a imensa maioria que li aqui.

Escrevo do meu jeito mesmo... vc um dia disse que meus contos – vc foi a primeira pessoa para quem mostrei um conto meu – tinham o estilo de Tchekhov!! Pronto vc criou um monstro 🙂

Vc revisou, leu, arrumou, deu palpites trocamos ideias sobre todos, TODOS, os contos, crônicas que escrevi até pouco tempo atrás. Vc foi o primeiro a ler todos os meus haicais que viraram exposição depois.

Vc leu todos os meus textos sobre o Lorenzo, sobre minha mãe, sobre minha vida...

Todas as minhas exposições... os nomes, os títulos vieram de você. Afinal Márcio, vc sabe que sou péssima com títulos e você sempre me deu grandes títulos criativos e que parece que sabiam exatamente o que eu queria.

O último “Mulheres2 – Impressões de Corpo e Alma” ideia dada no dia 19 de junho. A expo foi um sucesso!

É, fui olhar as nossas conversas... sou meio esquecida e atrapalhada, vc sabe... amiga fora da curva lembra?! 🙂. Fui buscar fotos, achados, mémorias que sabia guardadas, mas não sabia onde!

E achei tanta coisa Márcio... tanta coisa... que nem imagina...

Os textos que vc escrevia para mim de presente de aniversário, Páscoa, Natal... alguns ai em imagens na postagem.

O meu breve currículo mais poético e artístico que vc fez para mim... uso até hoje nas minhas artes e agora que não deixarei de usar jamais! Ta ai tb entre as imagens.

E o texto que vc escreveu justificando minha entrada na disciplina de Revista que vc lecionava junto com o Renato Rovai – se bobear nem ele Renato lembra deste texto... chorei lendo... ta aí na postagem.

Na verdade tenho chorado muito... to parando... pq qd começo vem a sua voz aqui “Pô Marcinha, chorando por minha causa!”

Aliás, vc lembra Marcio, quando anos e anos atrás me avisaram na sala dos professores que vc havia morrido? Desandei a chorar que nem louca na sala dos professores... preocupei um monte de gente. Era o povo me dando água, me acalmando etc... Até que alguém falou “Mas o Calafiori não morreu não!” A notícia do meu choro correu a faculdade! Quando você soube que, além de terem te matado o quanto eu chorei e sofri, levei uma “bronca” de vc. “Pô Marcinha chorar assim por minha causa”

É Marcio, desta vez não foi mentira! Até chegar no seu velório aonde fiquei até as 22h30 e voltei na manhã seguinte para a despedida final, esperava que em algum momento alguém me falasse, novamente, que seria Fake News... mas não rolou.

Nossa amizade é de vidas, de alma – mesmo vc não acreditando muito nestas coisas espirituais – mas eu sei que era, é.

Tão rapidamente logo que nos conhecemos, nos tornamos amigos, nos reconhecemos... e por 20 anos... vc esteve presente na minha vida com uma força, uma presença, sem igual mesmo.

Poucos sabem do quanto era forte a nossa amizade.

Qts segredos meus eu te falei e sei que vc guardou.

Qts segredos vc me disse e eu guardei a sete chaves até saber, por vc, que você havia contato para um ou outro.

Saber da Regina, conhecer a Regina, logo no início, de como ficou feliz quando deu entrada nos papeis do casamento no dia 12 de junho – ainda tirei maior onda com vc falando deste seu lado romântico – dar entrada no casório no dia dos namorados!!!

Romântico demais! Como vc estava feliz...

E no dia 13 de junho te dei os parabéns , pedi o contato da Regina, disse que estava feliz demais da conta e falei que eu precisava arranjar um amor assim e vc me respondeu:

“— um dia vc arranja, o coração precisa estar desarmado”

Palavras suas, guardadas e gravadas aqui.... Ainda tô na busca Marcioooo... mas vc me escreveu isso e também escreveu, na mesma mensagem, que estava deprimido com toda esta situação da hemodiálise.

E como eu “brigava” com vc, desde maio de 2018, para vc decidir logo a começar a hemodiálise (que começou apenas em agosto).

Minha última briga foi pra te convencer a entrar na fila de transplante, também desde maio do ano passado te falava disso.

Você também brigava comigo, pegava no meu pé, dava bronca... ficou do meu lado em todos, TODOS os perrengues da minha vida que tive depois de te conhecer. Muitos deles, muitos amigos nem sonham que aconteceram. Só você soube e me ajudou e me socorreu!

E isso desde sempre... ou seja 20 anos de broncas, pegação de pé, de troca, reciprocidade, de confiança, de ajuda...

20 anos de muita, muita, muita amizade, carinho, respeito, amor mesmo... amor de alma!

Era assim que era.

Marcio...

Agora não tem mais nossas críticas e debates sobre a educação, formação...

Seus comentários para causar nas redes sociais e sua confissão pra mim “Marciaaa escrevi lá só pra discordar, gosto de causar polêmica”. Aliás, quando dava aula em jornalismo, na sala de aula, uma vez você disse “A Okida já é jornalista porque ama uma polêmica”. Amo mesmo!!!

Agora não tem mais brigas, pegação no pé....

Não tem mais piadas...

Não tem mais as críticas ao mundo, as pessoas...

Não terei mais um poema seu de presente de aniversário ou natal, ou sei lá de que... alguns aqui nesta postagem

Não terá mais você falando na voz do Lorenzo!!!! Que encontro foi aquele hein na sua casa... O Lorenzo e você, “A Voz”. Como era lindo ver/ler vc encarnando ele... Prometo tentar resgatar essas falas do Lorenzo por Marcio Calafiori, mesmo... vai ser difícil, mas vou tentar.

Afinal que criança teve o privilégio de ter como 2ª personalidade um Marcio Calafiori!!!

Numa das nossas ultimas conversas vc me perguntou:

“Não tenho visto mais o Lorenzo por aqui, cadê ele?”

Nesse dia falei que ele estava viajando e te apresentei o Yuichi. Trocamos algumas linhas engraçadas sobre o nome Yuichi e de onde tinha vindo. A partir daí vc também perguntava sobre como estavam Lorenzo, minha irmã e Yuichi.

É Marcio...

Estou te escrevendo isso por uma necessidade: de colocar um pouco pra fora tudo que estou sentindo. Quem sabe falando pro mundo, mesmo que o mundo não leia, a dor diminui.

Tinha prometido pra mim e pra vc que não ia chorar mais a partir da primeira linha deste texto... mas não deu.

Chorei...

Mas prometo tentar parar!

Afinal acredito mesmo que tudo acontece na hora certa que tem que acontecer.

Acredito que a vida continua e que vc esta melhor na sua nova caminhada.

Mas saber isso não elimina a dor...

Mas essa dor eu sei que vai virar uma linda saudade, repleta de lembranças e de muita história.

História essa que agradeço demais por existir e ter colocado você no meu caminho.

Fico por aqui... com certeza se vc revisasse este texto mudaria mil coisas, principalmente as minhas “...” 🙂 🙂 Mania de “...”

Termino com o um dos últimos poemas que vc me mandou do poeta Antonio Machado:

“Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
`Caminhante não há caminho,
se faz o caminho ao caminhar…´

Golpe a golpe, verso a verso.”

É isso... Golpe a golpe, verso a verso... vc continuará comigo sempre!

Márcio Calafiori Siga em paz amigo... grande amigo...

Fica uma grande falta... e saudades...



Márcio Calafiori foi jornalista, escritor e professor. Nasceu em 1957 e se formou pela Facos em 1986. Exerceu quase todos os cargos em redações de jornais em Santos, Santo André, Campinas e São Paulo. Foi redator, repórter, revisor, editor, secretário de redação, chefe de reportagem e ombudsman. Aposentou-se em 2012 como professor da Unisanta, depois de 29 anos de dedicação exclusiva ao Jornalismo Impresso. Na falta de coisa melhor para fazer, foi uma espécie de sócio fundador de LEVA UM CASAQUINHO



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