O
último retorno de José Ezequiel Moreira Neves à imprensa brasileira se deu com
o lançamento do documentário Ninguém pode provar nada: a inacreditável história
de Ezequiel Neves, de Rodrigo Pinto, em outubro passado, no 27º Festival de
Cinema Internacional do Rio de Janeiro. E a cada vez que ele volta, as
informações se repetem beirando ao clichê: crítico e produtor musical;
porra-louca; responsável pelo lançamento de Cazuza e o Barão Vermelho; a verve
de seu alter ego Zeca Jagger; fofoqueiro e corrosivo.
Nascido
em Belo Horizonte, em 29 de novembro de 1935, em uma família de classe média
cuja mãe era dona de casa e o pai, formado em Medicina, era pesquisador do
braço do Instituto de Manguinhos na capital mineira, é inegável o espírito
inquieto, a mordacidade e a insatisfação com tudo desde cedo. O pai faleceu em
maio de 1950, deixando o filho adolescente e suas duas irmãs. De certo modo,
sua inquietação rendeu fama e problemas, como quando foi expulso do Colégio
Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, acusado de tentar agredir um padre.
Por outro lado, iniciou sua formação cultural guiado pela amiga Vanessa Neto,
filha do empresário Oscar Neto, que lhe abriu caminho e o iniciou na música,
literatura e artes plásticas. Precisando trabalhar, conseguiu emprego como
assistente de biblioteca na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas
Gerais (atual UFMG), onde passou boa parte do tempo lendo… literatura
brasileira e estrangeira. Leu todos os volumes da Comédia Humana, de Balzac,
passando por autores ingleses, alemães, italianos, espanhóis e, claro,
brasileiros. Foi fã apaixonado de Clarice Lispector.
Em
meio a essa iniciação literária, fez amizade logo no início da década de 50 com
o futuro crítico e ensaísta literário Silviano Santiago (que o tornou
personagem central de seu livro de memórias Mil rosas roubadas após a morte de
Ezequiel em 2010) e com outros jovens, com os quais criou, em 1956, a revista
literária Complemento. A revista teve quatro números entre 1956 e 1958 e se
tornou uma grande referência de um grupo de jovens entusiasmados com a
literatura, o cinema, o teatro e as artes plásticas. A equipe editorial era
formada por Theotônio dos Santos Júnior, Silviano Santiago, Maurício Gomes
Leite, Ary Xavier, Heitor Martins e Ezequiel Neves.
Encontro
da equipe editorial para lançamento da revista Complemento em 1955. Ezequiel
Neves é o terceiro da direita para a esquerda. Foto cedida por Silviano
Santiago.Em
Complemento, Ezequiel publicou contos e poemas. Aliás, ele também publicou
outros textos literários em suplementos culturais de jornais de Beagá, como o
Diário de Minas e Folha de Minas. É claro que esse material merece ser reunido
e publicado! Deixo o poema “Noturno” publicado em 18 de agosto de 1957 no
jornal Folha de Minas:
A
noite vibra seu alarme
Presenciando
a música dos corpos.
Constrói
lamento
Num
leito de punhais,
Retém
fôlego e frêmito
Para
o adeus na sede de outro encontro.
Na
volta
O
mesmo itinerário pelas ruas e ausências.
Rumor
de tédio em nossos pés
Juntando-se
ao alarme.
Ainda
a partir de 1956, Ezequiel mergulhou de cabeça na vida teatral da cidade.
Inicialmente, fez duas pontas em Otelo, de William Shakespeare, e A viúva
astuciosa, de Carlo Goldoni, durante uma temporada da Companhia carioca
Tônia-Celi-Autran em Beagá. Depois, iniciou sua carreira como ator amador em
Nossa cidade, de Thornton Wilder, e Crime na catedral, de T. S. Eliot, ambas em
1957, pelo Teatro Universitário. Em 1958, já no famoso grupo que marcou época
em Belo Horizonte, o Teatro Experimental, Ezequiel atuou em A cantora careca,
de Eugene Ionesco, e pelos anos seguintes em Pluft, o fantasminha, de Maria
Clara Machado; Fim de jogo, de Samuel Beckett; o auto medieval Todomundo; na
direção de A volta do camaleão Alface, de Maria Clara Machado; Mariana Pineda,
de Federico Garcia Lorca; no monólogo A última voz de Krapp, de Samuel Beckett;
Visita ao zoológico, de Edward Albee; Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias; na
direção do monólogo A voz da chuva, de Tennessee Williams; em O noviço, de
Martins Pena; chegando a 1964 com Sonho de uma noite de verão, de William
Shakespeare. Dentre essas encenações, a mais notável talvez tenha sido em
dezembro de 1959 com Fim de jogo, traduzida por Silviano Santiago e João
Marschner e dirigida por Carlos Kroeber, encenada pela primeira vez no Brasil
por esse grupo.
Foto do elenco e equipe técnica da peça A cantora careca, encenada em 1958. Ezequiel Neves é o primeiro à direita, sentado. Foto do jornal Diário da Tarde de 24 de março de 1959. Hemeroteca Histórica da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa.
Em
agosto de 1964, Ezequiel Neves inicia uma coluna diária intitulada Discos no
jornal Diário de Minas, onde passa a fazer a crítica musical de lançamentos e
de artistas de longa carreira. Entre novembro de 1968 e fevereiro de 1965,
Ezequiel foi entrevistado por críticos de alguns jornais. Na entrevista a
Haydée Cintra publicada em 27 de outubro de 1960, no Diário de Minas, ele faz
uma espécie de autoperfil: “Dizem que tenho um perfil engraçadíssimo. Por não
possuir dois espelhos em casa, ainda não pude me divertir. Nunca uso paletó ou
gravata. Consigo ser calmo, e sem nenhuma transição chegar ao mais alto grau de
irascibilidade. Para isto basta alguém desagradável me filar um cigarro ou pedir
um disco emprestado. Estou sempre engolindo comprimidos das mais variadas
cores. Se alguém quiser me agradar, basta falar bem de Vanessa [Neto]. Cultivo
a preguiça, a dispersão e um tédio escombroso. Jamais inventariei o que fiz ou
o que deixei de fazer. Para mim nada tem sentido e tudo sem sentido.”
Ao
ser estimulado na mesma entrevista pela pergunta “Coisas que mais detesta”, ele
desfere: “Fé, esperança e caridade, compromissos, não trabalhar como ator, mau
teatro, gente que não bebe, qualquer livro de filosofia, ‘Temporada Lírica’,
ser pego com o dedo no nariz, saber que gente burra pode andar, ver e grunhir,
gente erudita e pretensiosa, idem, política, religião, profissão, acordeom, ser
chamado de ‘jovem talentoso’, Anne Frank (a do Diário), O Encouraçado Potemkin
(o filme), calor, euforia, luz, amar o próximo como a mim mesmo.”
De modo geral, todas as entrevistas encerravam com o fatídico ‘planos para o futuro’. Em 1958, Ezequiel respondeu a Afonso Romano de Sant’Anna: “Talvez resolva também mudar para S. Paulo, a fim de cursar a Escola de Arte Dramática de Alfredo Mesquita. Isso, porém, depende de muita coragem, coisa que me falta infelizmente.” Em 1960, respondeu: “Deixar Belô. Ir para qualquer lugar e até Caetano Furquim serve”. Em 1962, a resposta foi: “Sair daqui, o mais depressa possível. Não acredito que Belo Horizonte esteja preparada para um teatro mais sério, antes de uns cinco ou dez anos. E não quero ficar velho aqui sem conseguir o que quero.”
Foto de cena da peça Fim de jogo, encenada em dezembro de 1959. Ezequiel Neves e Neusa Rocha em cena. Foto cedida por Silviano Santiago.
Quinze
dias após o falecimento de sua mãe, ocorrido em 15 de junho de 1965, com 30
anos, Ezequiel Neves deixou Belo Horizonte para sempre. Logo no começo de julho
partiu para São Paulo, onde atuou no teatro. Ficou em terras paulistanas até o
começo dos anos 1970, quando então partiu definitivamente para o Rio de
Janeiro, cidade onde faleceu em 7 de julho de 2010.
Mas
entre aquelas entrevistas dadas por Ezequiel em Beagá, quero reproduzir
integralmente o relato que ele preparou para uma delas. Heitor Martins, em
fevereiro de 1960, pediu-lhe uma conversa para ser publicada no jornal Diário
da Tarde, onde o entrevistador tinha a coluna diária Plantão literário.
Ezequiel se recusou a seguir um roteiro de perguntas e preferiu falar
livremente. No relato que foi publicado, o entrevistado expressa certo grau de
atordoamento com o que sentia e de deslocamento. Leiam aqui:
“Heitor,
te peço prá não fazer perguntas nem me interromper. Será melhor eu ir falando
tudo de uma vez. Sei que terei de dizer algo sobre ‘Complemento’, pois faço
parte da turma. Digo: da turma e não da minha fase na revista. Sim, escrevi
contos que hoje renego. Tive que renegá-los ao descobrir que foram como uma
válvula de escape para coisas psíquicas. Fiz sublimações simbólicas, e isto
está bem distante do que acredito ser literatura. Aos quatorze anos desenhei
para um suplemento infantil. Aos dezenove, escrevi contos. Sempre fui um
sujeito que fugia de mim mesmo, através de coisas impressas. Isto adiou o meu
encontro comigo. Quando o jornal ou a revista não trouxeram mais a satisfação,
encontrei o álcool. Fiquei meio apavorado. Aí, não me adiantaram mais Drummond,
Fernando Pessoa, Rimbaud ou Ferreira Gullar. Os livros de Sartre, Camus e Gide
tornaram-se inúteis também. Tive um trauma psicológico dos mais sérios. A
Companhia Tônia-Celi-Autran, de passagem por Belô, foi a minha salvação.
Encontrando o teatro, fiz deste remédio um ídolo. Estou sendo fiel a ele há
mais de dois anos. Estou no Teatro Experimental onde prefiro trabalhar como
ator. Contudo, estrearei como diretor por estes dias. A peça é infantil (A
volta do camaleão Alface), mas a direção é das mais adultas. Sinto que é a
melhor coisa feita por mim até hoje. Ando numa crise difícil e não sei o que
acontecerá. Talvez seja covardia dar razão ao meu pai quando este dizia que
todo artista não deve se amarrar ao casamento. Talvez casamento entre aí como
símbolo de qualquer compromisso. Meu pai foi um artista do microscópio e não
sei por que diabo deixou de seguir à risca o que propalava. Não tenho nenhuma
fé em mim, e penso ser isso a causa da vontade de me destruir. Não quero
assustar ninguém por ser jovem e estar dizendo isso, e nem estou assustado. A
coisa será feita lentamente, pois não tenho dinheiro bastante para tanto vodka.
Posso estar confuso, mas acho que a minha autenticidade consiste neste meu
desamor, e nesta vontade de me destruir. Já não trabalho para esta destruição,
é ela quem me trabalha. Enquanto isto, vou ouvindo Ella Fitzgerald e Modern
Jazz Quartet; enquanto olho na parede uma gravura de Maria Bonomi. Acho também
Ataulfo Alves muito mais importante que a Petrobras ou Gilberto Freyre e os
constantes Luniks. Quero também ler imediatamente o livro do Ivan [Ângelo] e do
Silviano [Santiago] [referência ao livro de contos Duas faces]. Nas manhãs de
ressaca espero sempre uma carta de Vanessa [Neto], Felipe [irmão de Vanessa],
Mônica [Lisboa], Jairo [advogado], Cacilda [Becker] e do [Paulo] Autran. Gosto
deles demais, pois são inteligentes e me compreendem. Aliás, desconheço pessoas
burras e tenho orgulho de só possuir amigos e inimigos inteligentes. Gostaria
também de dizer que achei Crônica da casa assassinada [de Lúcio Cardoso] um
livro fabuloso. É mesmo das coisas mais terríveis e geniais lidas por mim até
hoje. No mais, Heitor, vê se você, com seu prestígio, consegue na [livraria]
Itatiaia a publicação do último livro de Clarice Lispector. Traga Clarice prá
tarde de autógrafos, pois não aguento mais não a conhecer. Desculpe, Heitor,
mais um favorzinho: Estou meio sem voz, hoje, grite por garçom trazer mais um
vodka com tônica.”
Chamada da entrevista cedida por Ezequiel Neves a Heitor Martins para a coluna Plantão literário. Foto do jornal Diário da Tarde de 23 de fevereiro de 1960. Hemeroteca Histórica da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa.
Luiz Morando é co-fundador do Museu Bajubá, onde exerce a vice-presidência e a coordenação da Estação Belo Horizonte, e também pesquisador sobre Memória do Segmento LGBTQIA+ de Belo Horizonte.








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