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POEMINHA DA SEMANA: OLHOS DE RESSACA (por Geraldo Carneiro)

OLHOS DE RESSACA Geraldo Carneiro minha deusa negra quando anoitece desce as escadas do apartamento e procura a estátua no centro da praça onde faz o ponto provisoriamente eu fico na cama pensando na vida e quando me canso abro a janela enxergando o porto e suas luzes foscas o meu coração se queixa amargamente penso na morena do andar de baixo e no meu destino cego, sufocado nesse edifício sórdido & sombrio sempre mal e mal vivendo de favores e a minha deusa corre os esgotos essa rede obscura sob as cidades desde que a noite é noite e o mundo é mundo senhora das águas dos encanamentos eu escuto o samba mais dolente & negro e a luz difusa que vem do inferninho no primeiro andar do prédio condenado brilha nos meus tristes olhos de ressaca e a minha deusa, a pantera do catre consagrada à fome e à fertilidade bebe o suor de um marinheiro turco e às vezes os olhos onde a lua eu recordo os laços na beira da cama percorrendo o álbum de fotografia...

POEMINHA DE SEGUNDA: HÁ UMA GOTA DE SANGUE NO CARTÃO POSTAL (por Cacaso)

eu sou manhoso eu sou brasileiro finjo que vou mas não vou minha janela é a moldura do luar do sertão a verde mata nos olhos verdes da mulata sou brasileiro e manhoso por isso dentro da noite e de meu quarto fico cismando  na beira de um rio na imensa solidão de latidos e araras lívido de medo e de amor Antônio Carlos de Brito, o Cacaso, nasceu em Uberaba em 13 de março de 1944. Foi um professor universitário, letrista e poeta brasileiro. Estudou Filosofia nos Anos 60. Nos 70, lecionou Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na PUC-RJ. Só começou a escrever poesia aos 20 anos. Estreou como poeta em 1967, com o livro  A Palavra Cerzida , prefaciado por José Guilherme Merquior, representando com Francisco Alvim a primeira geração "pós-vanguarda". Sua obra reunida está em  Lero Lero publicado pela Casac Naify. Cacaso morreu no Rio de Janeiro no dia 27 de dezembro de 1987.

POEMINHA DA SEMANA (por Geraldo Carneiro)

OLHOS DE RESSACA Geraldo Carneiro minha deusa negra quando anoitece desce as escadas do apartamento e procura a estátua no centro da praça onde faz o ponto provisoriamente eu fico na cama pensando na vida e quando me canso abro a janela enxergando o porto e suas luzes foscas o meu coração se queixa amargamente penso na morena do andar de baixo e no meu destino cego, sufocado nesse edifício sórdido & sombrio sempre mal e mal vivendo de favores e a minha deusa corre os esgotos essa rede obscura sob as cidades desde que a noite é noite e o mundo é mundo senhora das águas dos encanamentos eu escuto o samba mais dolente & negro e a luz difusa que vem do inferninho no primeiro andar do prédio condenado brilha nos meus tristes olhos de ressaca e a minha deusa, a pantera do catre consagrada à fome e à fertilidade bebe o suor de um marinheiro turco e às vezes os olhos onde a lua eu recordo os laços na beira da cama percorrendo o álbum de fotografia...