Jogou a bola sete sem pressa, certo da tacada perfeita. Só não contava com a descaída da mesa. "Morfética”, rosnou, entre dentes. E lá se foi mais uma partida. Mais uma chance de empatar o jogo, duríssimo, uma pedreira que já se arrastava por mais de dez horas. Pelo jeito, isso aqui vai longe, matutou. Naval pôs o taco sobre o feltro verde e disse ao adversário que ia ao banheiro. Pediu para ele arrumar as bolas, que voltaria logo. “Vou tirar a água do joelho”, disse, forçando um sorriso. No sanitário, sua máscara caiu. Ao olhar para o espelho, quase não se reconheceu. “Quem é esse caco velho”, pensou. Cadê o Naval falado? Onde foi parar aquela cara de anjo, aquele sorriso maroto, que ajudavam a camuflar uma das piranhas de jogo mais vorazes de todos os tempos? Trinta anos de sinuca é demais. Até para um malandro. É muito tempo de mesa. Tempo demais. Mereceria duas aposentadorias. Ou três. Ou um plano de saúde de Primeiro Mundo, desses que têm cobertura até para...
UMA REVISTA ACONCHEGANTE QUE VALE POR UM COBERTORZINHO