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OS VIRGENS SEM LIVROS (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)

Éramos dois virgens. Dois profissionais que passavam por aquela experiência pela primeira vez. Isso explicava porque andávamos de um lado para o outro em frente à livraria. Tentávamos amenizar a expectativa e o atraso do visitante com piadas, sorrisos, conversas com outros clientes e papos de boteco – mesmo sem cerveja – sobre futebol. Eu era um jornalista com meia dúzia de anos de carreira. José Luiz Tahan era o dono da livraria Iporanga e, portanto, o sujeito que havia me contratado. A livraria ficava no Gonzaga, bairro nobre de Santos, no litoral de São Paulo. José Luiz também organizava um evento com escritores pela primeira vez e sonhava com voos mais elevados no mercado editorial. De funcionário da Iporanga, passou a sócio. Naquele momento, em 2000, ele já aspirava atrair escritores para um dia transformar seu estabelecimento também em editora. José Luiz, amigo desde a adolescência por conta das peladas nas praias de Santos, havia feito parceria com uma sala de...

COMO ME TORNEI LIVREIRO E A DESEDUCAÇÃO VOCACIONAL (por José Luiz Tahan)

Isto se passou em 1990 e eu estava com 18 anos, sem dinheiro no bolso e com vontade de fazer uma faculdade. O plano era simples: arranjar um emprego que ajudasse nos custos do curso de Arquitetura. Para isso reuni as minhas referências, que eram uma pasta cheia de bicos de pena e alguma cara-de-pau. O resto era chute. Visitei e preenchi fichas de emprego em lugares que me pareciam legais. Locadora de filmes, loja de departamentos (não é legal, mas era caminho), loja de foto (putz), agência de publicidade e até numa livraria chamada Iporanga. Em todos os lugares deixei um telefone de uma vizinha meio coroa, com alguma boa vontade, mas um tanto distraída, como já vou explicar. O telefone depois de uns dias tocou e a vizinha deu um recado um tanto truncado - disse que o Zé Preto, ou será Zé Alfredo, Zé Pedrinho? Bah! Um tal Zé-não-sei-o-quê ligou para você e disse para que o procurasse. Aí eu disse: mas daonde é este homem? Ela: deixa de ser braço-curto menino, eu, na sua i...