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VISIONÁRIA VIRGÍNIA (por Sérgio Augusto)

Virginia Woolf sabia como unir as mulheres contra a violência e a guerra: um novo tipo de educação, para uma nova e revolucionária faculdade feminina.          (publicado em O Estado de S. Paulo  em 16 de março de 2019) Quando tomo conhecimento de uma cafajestada dos filhos do presidente, eu me lembro de Virginia Woolf – de quem eles, assim como o pai, não devem ter medo, pois talvez nem de nome a conheçam. Quando soube da prisão dos assassinos de Marielle e Anderson, terça-feira passada, também me lembrei de Virginia Woolf. Não por causa de seu lesbianismo, mas por suas irrefutáveis reflexões sobre a tendência dos homens à prática e à curtição da violência. As mulheres podem não ser de Vênus, mas muitos homens, definitivamente, são de Marte e de morte. Quantos atentados e chacinas, como a de Suzano, foram praticados por mulheres, nos últimos tempos? Ou melhor, em qualquer tempo. Será que alguém ainda duvida que a maior...

FÁBIO CAMPOS ASSISTE E RECOMENDA A COMÉDIA ARGENTINA "UM AMOR INESPERADO"

Já estamos acostumados a tomar lavada do cinema argentino quando falamos em drama, a novidade é que também tomamos uma lavada quando o assunto é comédia, mais especificamente, comédia romântica. Tudo bem que os filmes argentinos passam por um filtro para chegar aqui, não recebemos qualquer coisa, então acabamos recebendo os mais bem-sucedidos ou os com boa recepção da critica – Um Amor Inesperado foi a segunda maior bilheteria de 2018 por lá –, mas, mesmo comparando com as melhores produções nacionais, no geral, eles se saem melhor. No filme, Marcos e Ana (o onipresente Ricardo Darín e Mercedes Morán) estão casados há 25 anos, são aquele tipo de casal bem entrosado, com piadas internas, auto ironia, gostos em comum, mas que, inevitavelmente, já foram contaminados pelo dia a dia. Quando o filho vai fazer universidade na Espanha é justamente a mudança no dia a dia que levanta questões em ambos. Agora que há mais tempo livre, os questionamentos vão aparecendo. Ao...

UROLAGNIA (por Germano Quaresma)

UROLAGNIA Num banheiro tosco De hotel barato Me pedes que eu saia Pra fazeres xixi. Vergonha, neguinha? Deixa de bobagem. Se tem uma coisa que tu não tens Nessa carinha linda É vergonha. Vem cá, senta aqui gostoso Enquanto eu, de joelhos, te adoro E seguro sobre nossas cabeças A mangueirinha da ducha Pra jorrar morno sobre nós. Enquanto tu te alivias Eu beijo teus peitinhos duros de vergonha E sinto o jorro quente sobre nossos torsos Como se me fosse dada a graça De mijares sobre mim. Germano Quaresma, ou Manoel Herzog, nasceu em Santos, São Paulo, em 1964. Criado na cidade de Cubatão, trabalhou na indústria química e formou-se em Direito. Estreou na literatura em 1987 com os poemas de  Brincadeira Surrealista . É autor dos romances A Jaca do Cemitério É Mais Doce  (2017), Dec(ad)ência  (2016),  O Evangelista  (2015) e  Companhia Brasileira de Alquimia  (2013), além dos l...

PERTO DO FIM (por Marcelo Rayel Correggiari)

Este humilíssimo merceeiro, às vezes questionado sobre a lambança de nome Brexit, tenta resumir tudo num ‘tweet’. História longa: daria umas 400 páginas. De fato, uma briga interna no Partido Conservador entre o ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, e o ex-Primeiro-Ministro, David Cameron, uma das várias escaramuças, se eu não me engano, vindas da época de Universidade de Oxford, traz em si o coração do imbróglio que levou ao derretimento tudo o que se entendeu como política dentro do Reino Unido. Com a escolha do ‘leave’ (“sair”, da União Europeia), os intelectuais brigaram com os menos instruídos, os pobres passaram a odiar ainda mais os ricos, os jovens botaram a culpa nos mais velhos. “The Land of Confusion”, no melhor estilo Genesis. Como se chega a isso?! Super simples, caro(a) freguês(a): a arrogância de acharmos que nossos excelentes procedimentos e maravilhosos pensamentos são o bastante para convencer qualquer um a estar “... do lado do bem”. Mas, afinal... ...

O INDIGITADO (um conto de Flávio Viegas Amoreira)

Um sábado abrasador. A temporada anunciava o êxodo dos forasteiros para ganhar o sol. Podia sentir o serpentear dos milhares de carro pela estrada do mar. Embalara o lixo reciclável com esmero de artesão.  Duas voltas para amarrar bem e conter qualquer vestígio do cheiro de peixe.  O burburinho da debandada ao redor soava meio dia no horário de verão.  Separados os jornais, um volume de contos de Maupassant, programado um western de Leone para começo da noite, talvez uma cerveja por perto a noite.... Desde que Peter partira não tivera mais ninguém -- não com aquela exclusividade.  Não que tivessem morado juntos, mesmo assim sentia –se compromissado com alguma rotina a dois.   A porta da lixeira fechava-se 14 horas e esperava deixar a cozinha limpa. O prédio de quinze andares era ocupado por idosos, casais recém-casados e alguns apartamentos de temporada. Nada conste tivesse grandes amigos por ali. Só no bar padaria lanchonete juntavam se conhecidos q...