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SÉRGIO PORTO (por Paulo Mendes Campos)

publicado originalmente em O CRUZEIRO em 31 de Novembro de 1968 O diabo o é que todo mundo pensa que sou um cínico; ninguém acredita que sou um sentimentalão que não agüenta uma gata pelo rabo. Sérgio me dizia isso a milhares de metros de altitude, copo de uísque na mão, rumo a Buenos Aires. Ao saber que eu tinha resolvido assistir ao jogo Brasil e Uruguai, no Campeonato Pan-Americano de 1959, veio procurar-me com uma ansiedade incomum: precisava afastar-se do Rio de qualquer jeito, me disse, tinha decisivos assuntos íntimos sobre os quais queria pensar. Sendo assim, por que ir a Buenos Aires? Não fiz a pergunta por entendê-lo: Sérgio possuía o talento de viver em diversas faixas ao mesmo tempo; Buenos Aires lhe calhava numa instância de decisões pessoais porque o recolhimento do hotel se somava aos benefícios do torneio de futebol, da companhia dos amigos, das anedotas jornalísticas e até mesmo dos restaurantes portenhos. Já dentro do avião, nessa ou em qualquer out...

PENSAMENTOS ESPARSOS DO LALAU, ALIÁS STANISLAW PONTE PRETA, OU SÉRGIO PORTO

- No Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixaram de acontecer. - Antes só do que muito acompanhado. - Quando aquele cavalheiro nervoso entrou no hospital dizendo "eu sou coronel, eu sou coronel", o médico tirou o estetoscópio do ouvido e quis saber: "Fora esse, qual o outro mal do qual o senhor se queixa?" - Ser imbecil é mais fácil. - Está dando mais do que cará no brejo  - Nos trens suburbanos não livram a cara nem de padre, que dirá mulher de minissaia. - O mais perigoso é que já estão confundindo justa causa com calça justa. - O Reino Unido não é tão unido assim como eles dizem, não. - Desligou o telefone com uma violência de PM em serviço. - Mais monótono do que itinerário de elevador. - Macrobiótica é um regime alimentar para quem tem 77 anos e quer chegar aos 78. - Consciência é como vesícula, a gente só se preocupa com ela quando dói. - Difícil dizer o que incomoda mais, se a inteligência ostensiva ...

AUTORETRATO DO ARTISTA QUANDO NÃO TÃO JOVEM (por Sérgio Porto)

ATIVIDADE PROFISSIONAL Jornalista, radialista, televisista (o termo ainda não existe, mas a atividade dizem que sim), teatrólogo ora em recesso, humorista, publicista e bancário. OUTRAS ATIVIDADES Marido, pescador, colecionador de discos (só samba do bom e jazz tocado por negro, além de clássicos), ex-atleta, hoje cardíaco. Mania de limpar coisas tais como livros, discos, objetos de metal e cachimbos. PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES Mulher. QUALIDADES PARADOXAIS Boêmio que adora ficar em casa, irreverente que revê o que escreve, humorista a sério. PONTOS VULNERÁVEIS Completa incapacidade para se deixar arrebatar por política. Jamais teve opinião formada sobre qualquer figurão da vida pública, quer nacional, quer estrangeira. ÓDIOS INCONFESSOS Puxa-saco, militar metido a machão, burro metido a sabido e, principalmente, racista. PANACÉIAS CASEIRAS Quando dói do umbigo para baixo: Elixir Paregórico. Do umbigo para cima: aspirina. SUPERTIÇÕES INVENCÍ...