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JE SUIS O TOURO (uma Bofetada do Passado de Ivan Lessa - Jornal da Tarde, 28-09-1986)

Diante de óbvia e arrogante excelência, sempre tive um único impulso natural: pegar distância, mirar, desembestar em direção da bruta e tacar-lhe uma cabeçada firme. Esta minha propensão tornou difícil, e traumatizante para os mais próximos, uma idazinha ao Louvre, Prado ou Vaticano. Mais terceiros-mundano que mundista, simpatizo com o boliviano de canivete na  Mona Lisa , o paraguaio tocando bala na  Pietá . A qualidade superior não me impressiona: irrita. Com a espalhafatosa chegada do Outono a Londres (3 e 20 da manhã; 20 de Setembro. Wham. Que foi? Mais uma explosão lá em Paris? Não. Todas as folhas da cidade caindo ao mesmo tempo), 0lho em torno e começo a pegar distância. Outro touro me pressente e escavaaca com suas patas as famosas areias ensanguentadas de Piccadilly. Manie de Picasso com touro. Touro, mulher e pouca vergonha. Tá lá o corpo estendido no chão. Exposição de seus cadernos na  Real Academia . Picasso meio São Paulo: não pára nunca. Nem a...

CAFÉ E BOM DIA #5 (por Carlos Eduardo "Brizolinha" Motta)

Em 1983, a escritora belga Marguerite Yourcenar travou uma relação um tanto curiosa com ninguém menos que Michelangelo, grande artista do Renascimento italiano, considerado divino ainda em vida, transformado em mito no momento de sua morte, mas a quem Marguerite Yourcenar, sem dúvida, imortalizou. A escritora de língua francesa toma Michelangelo para si, e ela mesma lhe dá a voz. Ela abre mão da passividade biográfico-narrativa do escritor diante de seu objeto. Ela lhe devolve a voz através de sua própria voz; lhe devolve a vida através de sua própria vida. Ela assume a primeira pessoa e quem fala não é mais Marguerite de Crayencour – anagrama imperfeito de Yourcenar. É Michelangelo quem lhe toma a voz, ou ao contrário: ela é quem toma a voz de Michelangelo, como quem rouba uma parte vital de alguém que lhe permite o surrupio com sorriso macio no rosto. “Sistina”, capítulo de “O Tempo, esse grande escultor” é uma narrativa delicada, com tom de confissão, entoada pela voz do artist...

JE SUIS O TOURO (estreia espetacular de Ivan Lessa no Jornal da Tarde, 28 Setembro 1986)

Diante de óbvia e arrogante excelência, sempre tive um único impulso natural: pegar distância, mirar, desembestar em direção da bruta e tacar-lhe uma cabeçada firme. Esta minha propensão tornou difícil, e traumatizante para os mais próximos, uma idazinha ao Louvre, Prado ou Vaticano. Mais terceiros-mundano que mundista, simpatizo com o boliviano de canivete na Mona Lisa , o paraguaio tocando bala na Pietá . A qualidade superior não me impressiona: irrita. Com a espalhafatosa chegada do Outono a Londres (3 e 20 da manhã; 20 de Setembro. Wham. Que foi? Mais uma explosão lá em Paris? Não. Todas as folhas da cidade caindo ao mesmo tempo), 0lho em torno e começo a pegar distância. Outro touro me pressente e escavaaca com suas patas as famosas areias ensanguentadas de Piccadilly. Manie de Picasso com touro. Touro, mulher e pouca vergonha. Tá lá o corpo estendido no chão. Exposição de seus cadernos na Real Academia . Picasso meio São Paulo: não pára nunca. Nem acaba. Nome da e...