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Showing posts with the label Pela Sete - Breves Histórias do Pano Verde

ONANISMO (por Carlão Bittencourt)

“O que eu gosto na masturbação é que você não tem de dizer nada depois” (Milos Forman) O redator estava atrasado. Passava da meia noite quando chegou à festa de lançamento do Anuário do Clube de Criação de São Paulo, no Palace. Lotado. Riu. Melhor assim. Antes tarde do que nunca. Afinal, àquela hora, quem precisava ir embora já tinha se escafedido. Quem ficou, foi para meter o pé na jaca. Com tudo. Homens ao bar! No balcão, pediu ao barman um uísque à la Vinicius de Moraes. Sabe como é? Copo alto, gelo cristal e uísque até a boca. Perfeito. Apesar da sede, desértica, ficou mexendo a bebida com o dedo até o copo embaçar. Pronto. Matou o drinque de um longo e delicioso gole. Mais um, por favor. Gêmeo idêntico. Enquanto esperava, tragou o cigarro e espiou o salão. Indócil mulherio. Que agito! Podia ouvir as vozes e gargalhadas de onde estava. A noite prometia. Pegou o segundo copo e entrou na festa. De cabeça. Logo de cara, esbarrou numa mesa amiga. ...

O RAY-BAN (por Carlão Bittencourt)

"É muito difícil saber não trabalhar” (Jorginho Guinle) Bóris Fetcher teve várias profissões antes de se decidir por criar anúncios. Muitas. Até mesmo dono de circo. Mas era, antes de tudo, um grande redator. Na opinião de muita gente de peso, como Noé Sandino, Tom Figueiredo e Bjarn Norking, ele foi o melhor de sua geração. Bóris era mesmo brilhante. E não só na propaganda. Nascido na Rússia, rodou o mundo até vir morar na aprazível Vila Sonia, bairro popular na periferia de São Paulo. Essa incrível trajetória foi sua escola de vida, seu curso superior. Um P.H.D. em política de boa vizinhança, muito sereno e jogo de cintura. Inteligente, culto, rápido no gatilho, Bóris falava várias línguas. Mas conhecia mesmo era a língua do povo, grande segredo do seu sucesso como redator. Fosse qual fosse o veículo de comunicação, ele sabia como poucos falar a língua do homem comum. Era também um gozador. Um brincalhão nato, escondido atrás dos cabe...

TEM QUE RESPEITAR (uma crônica publicitária de Carlão Bittencourt)

“A mulher e o dinheiro são as únicas coisas sérias da vida” (Noel Rosa) A Novagência de Propaganda era uma das agências mais charmosas de São Paulo. A começar pela localização, os Jardins, na esquina da Rua Argentina com Av. Brasil. Nélson Biondi e Herbert Levy Filho não brincaram em serviço. Que delícia trabalhar lá! Salários generosos, contas ótimas, pessoas inteligentes e divertidas. Até a turma do café era criativa. Esse setor, nevrálgico em qualquer agência que se preze, estava aos cuidados de duas figuras carimbadas: Dona Tereza, rainha da copa, e Chiquinho, garçom. Mulata, olhos vivos, Dona Tereza tendia para a gordinha e, apesar de estar beirando os 60, ainda dava meia sola, segundo ela mesma. Era o deboche em forma de gente. Adorava piada suja e fuxico. No quesito humor, contava anedotas de corar barbeiro de periferia com tanta naturalidade que não chocava ninguém. E era imbatível nas fofocas. Sua rede de informantes daria inveja ao falecido SNI, o temível Ser...

A VISITA DO VIGILANTE RODOVIÁRIO (uma crônica de Carlão Bittencourt)

“A pior coisa do sucesso é que você tem que continuar sendo um sucesso” (Irving Berlin) Acontece cada coisa numa agência de propaganda que parece mentira. Mas não é. Essa história, por exemplo, teve como cenário a Novagência, no final de 1979. E é pura verdade. Certa tarde o telefone tocou em minha sala. Era Silvana, a telefonista, dizendo que havia um policial rodoviário na recepção. “Ele quer falar com alguém do Departamento de Artes”, disse ela. “Trás ele aqui na Criação”, respondi. Fiquei pensando o que um PM poderia querer com a gente. Estava eu matutando sobre aquela visita inusitada, quando a porta se abriu e Silvana entrou, acompanhada por ninguém menos do que Carlos Miranda, o Vigilante Rodoviário! Se você tem menos de 40 anos, certamente nunca ouviu falar dele. Mas saiba que Carlos, junto com seu fiel companheiro Lobo, um cão pastor alemão, foi o protagonista do primeiro seriado de TV produzido no Brasil. Um sucesso tão inesperado quanto retumbante....

A GRANDE VIRADA E A FÁBULA: 2 CAUSOS COM OTACÍLIO DOS SANTOS (por Carlão Bittencourt)

“Não fumo, não bebo e não cheiro. Só minto um pouquinho” (Tim Maia) A GRANDE VIRADA Uma das equipes de criativos mais talentosas jamais reunidas foi o Dream Team. Liderada por Otacílio de Santos, aquela criação fez e aconteceu durante um tempão, numa antiga agência de São Paulo. E mais teria feito, não fosse a proposta do dono de outra super agência para que eles fossem para lá. O homem queria dar uma virada na casa. O convite era irrecusável. Primeiro, porque se tratava do reconhecimento de uma das maiores agências do mercado ao trabalho daquele grupo de criativos. Depois, porque representava um novo desafio profissional. Por último, porque a proposta financeira beirava a estratosfera. Resultado: Otacílio e o Dream Team toparam. Já nos primeiros dias de agência nova estavam totalmente à vontade. Criando como sempre e se divertindo como nunca. Quarta-feira, três e pouco da tarde. O grupo estava a todo vapor, às voltas com uma campanha. Otacílio ligou par...

A SPERANZA É A ÚLTIMA QUE MORRE (por Carlão Bittencourt)

“Não se pode levar a sério um restaurante em que o guardanapo vem cozido e a comida vem crua”  (Nizan Guanaes) Esta história aconteceu com o famoso Gênio Raimardi, grande redator, diretor de criação, dono de agência e um dos mais importantes publicitários da nossa propaganda. O problema é que o cara era um mala sem alça e, ainda por cima, metido a valente. Ou seja, um puta chato de galochas. Ou descalço, e com uma pistola automática na cintura. O fato é que rolou uma longa apresentação na agência dele para um cliente. O cara era especialmente difícil de aprovar uma campanha. Haja argumentação e criatividade. Muito bem. A reunião começou às 18 horas. Cinco horas depois, o desalmado cliente aprovou todo o trabalho e foi-se embora. Já não era sem tempo. Às onze da noite os estômagos roncavam em uníssono. Mais um pouco e comeriam os layouts. Para comemorar, Gênio, o dono da agência, convidou todo mundo para jantar. Pelo horário foram à Cantina Speranza, no Bixiga. L...

A VISITA DO VIGILANTE RODOVIÁRIO (por Carlão Bittencourt)

“A pior coisa do sucesso é que você tem que continuar sendo um sucesso” (Irving Berlin) Acontece cada coisa numa agência de propaganda que parece mentira. Mas não é. Essa história, por exemplo, teve como cenário a Novagência, no final de 1979. E é pura verdade. Certa tarde o telefone tocou em minha sala. Era Silvana, a telefonista, dizendo que havia um policial rodoviário na recepção. “Ele quer falar com alguém do Departamento de Artes”, disse ela. “Trás ele aqui na Criação”, respondi. Fiquei pensando o que um PM poderia querer com a gente. Estava eu matutando sobre aquela visita inusitada, quando a porta se abriu e Silvana entrou, acompanhada por ninguém menos do que Carlos Miranda, o Vigilante Rodoviário! Se você tem menos de 40 anos, certamente nunca ouviu falar dele. Mas saiba que Carlos, junto com seu fiel companheiro Lobo, um cão pastor alemão, foi o protagonista do primeiro seriado de TV produzido no Brasil. Um sucesso tão inesperado quanto retumbante. Pa...