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Showing posts with the label Vinícius de Moraes

SAUDADE DO FUTURO (por Itamar Alves)

  Uma das tônicas da música brasileira da segunda metade do século XX é a de forma e conteúdo servirem à ideia de mudança. Canções com letras em versos abertos e estruturas modernas traduziram foneticamente o salto desenvolvimentista das décadas de 1950 e 60, e a redemocratização dos 80 teve impacto forte no ambiente pop brasuca . Duas canções-chaves desses momentos aproximam-se nos formatos e temas de vontade de futuro: “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes; “Fullgás”, de Marina Lima e Antonio Cícero. Funcionam como polaróides do que o crítico literário José Guilherme Merquior chamou de “saudade às avessas”, ou seja, o sentimento de falta do que ainda não veio como vetor para transformação.   Escritas por dois poetas que queriam rearranjar o contexto das letras de seus respectivos momentos, “Chega de Saudade” e “Fullgás” subverteram a prática comum . A música das décadas de 1950, com temas de tristeza e abandono, e de 1970, ainda com ranços ou de binarismo...

OS QUATRO ELEMENTOS - A TERRA (por Vinícius de Moraes)

Um dia, estando nós em verdes prados Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa Ei-la que me detém nos meus agrados E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa Com face cauta e olhos dissimulados E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza Como se os beijos meus fossem mal dados E a minha mão não fosse mais precisa. Irritado, me afasto; mas a Amada A minha zanga, meiga, me entretém Com essa astúcia que o sexo lhe deu. Mas eu que não sou bobo, digo nada… Ah, e assim… (só penso) Muito bem: Antes que a terra a coma, como eu. Vinícius de Moraes nasceu   em 19 de Outubro de 1913   na cidade do Rio de Janeiro.   Sua obra é vasta,   passando pela literatura,   teatro, cinema e música.   Ainda assim, sempre considerou   que a poesia foi sua primeira   e maior vocação, e que   toda sua atividade artística   deriva do fato de ser poeta. Gostava demais das mulheres. Casou-se n...

PASSEANDO NO JARDIM COM TOM JOBIM (por Chico Marques)

O ano era 1985. Brasília estava comemorando 25 anos, e o Governo do Distrito Federal decidiu promover no aniversário da cidade uma apresentação da  Sinfonia de Brasília , composta por Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes em 1960 para a inauguração da nova capital. Para isso, convocou o próprio Tom Jobim para coordenar uma revisão do arranjo da Sinfonia original -- um ítem pouco conhecido em seu songbook -- e reger a peça à frente da Orquestra Jovem da Escola de Música de Brasília n o dia 21 de Abril, diante do prédio do Congresso Nacional. Vinícius de Moraes tinha morrido há menos de dois anos, e o resgate da peça, de certa forma, serviria como uma homenagem um pouco tardia, mas oportuna, à memória do poetinha. Pois bem: minha irmã mais nova, Thaís Marques, pianista (hoje, professora de música em uma Universidade em Belo Horizonte), fazia parte da Orquestra Jovem da Escola de Música de Brasília, e seguia todo dia para as dependências modernosas da Escola...

RECADO DE PRIMAVERA (uma Bofetada do Passado de Rubem Braga)

Meu caro Vinicius de Moraes: Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris. O sinal mais humilde da chegada da Primavera vi aqui junto de minha varanda. Um tico-tico com uma folhinha seca de capim no bico. Ele está fazendo ninho numa touceira de samambaia, debaixo da pitangueira. Pouco depois vi que se aproximava, muito matreiro, um pássaro-preto, desses que chamam de chopim. Não trazia nada no bico; vinha apenas fiscalizar, saber se o outro já havia arrumado o ninho para ...

POEMINHA DE DOMINGO QUASE NATAL (por Vinícius de Moraes)

POEMA DE NATAL Vinicius de Moraes Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos — Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na treva Um caminho entre dois túmulos — Por isso precisamos velar Falar baixo, pisar leve, ver A noite dormir em silêncio. Não há muito o que dizer: Uma canção sobre um berço Um verso, talvez de amor Uma prece por quem se vai — Mas que essa hora não esqueça E por ela os nossos corações Se deixem, graves e simples. Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre Para a participação da poesia Para ver a face da morte — De repente nunca mais esperaremos... Hoje a noite é jovem; da morte, apenas Nascemos, imensamente. Marcus Vinicius de Moraes (18/10/1913 - 09/07/1980), poeta, jornalista, compositor...