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JOÃO e JEREMIAS - A PORRA DA HISTÓRIA (um folhetim beat de JR Fidalgo - 16ª de 17 partes)

CAPÍTULO XXVIII Foi muita estupidez imaginar que as bugigangas que haviam ficado com Júlio poderiam render alguma grana decente. A moto tinha se transformado num monte de ferro-velho enferrujado, depois de permanecer guardada durante todos aqueles anos num dos três ou quatro pequenos armazéns clandestinos que o pai de Júlio mantinha na zona portuária. O jeito foi aceitar a mixaria que a única pessoa que poderia se interessar por aquilo ofereceu, ou seja, o dono de um ferro-velho. Alguns móveis, guardados no mesmo armazém, já tinham virado comida de cupim. E os cupins não haviam deixado nem um bilhete, agradecendo pela refeição. Era óbvio que as duas TVs já não funcionavam mais, nem o aparelho de som ou os dois amplificadores, tanto o maior quanto o menor. Bem, a guitarra estava em boas condições, mas isso só havia acontecido porque Júlio a tinha “adotado” e ela, desde que Jeremias partira, tinha se transformado em companheira fiel de Júlio, o que com ce...

JOÃO e JEREMIAS - A PORRA DA HISTÓRIA (um folhetim beat de JR Fidalgo - 15ª de 17 partes)

CAPÍTULO XXVI Na verdade Perder contato é fácil Astronautas sabem disso Também os controladores nas torres Devia haver um avião bem aqui Mas ele não está aqui, nem ali Ou em lugar algum Na verdade Perder contato é fácil Antes nos víamos quase todos os dias Agora trocamos e-mails de vez em quando Escrever cartas nem pensar Seria muito íntimo E, afinal, somos adultos Na verdade Perder contato é fácil Antes havia algum sentido Acordar de manhã Escovar os dentes e dar um beijo em você Levar o lixo lá fora Sair de casa Voltar Deitar ao seu lado Dormir e acordar Na verdade Perder contato é fácil Basta a gente se distrair Não sabia por que, mas tinha resolvido começar a ler A Porta dos Fundos do Paraíso pelas páginas com poesias, localizadas mais ou menos lá pela metade do livro.  Nunca gostara de poesia, na verdade achava poesia um tremendo pé no saco. Além disso,...

JOÃO e JEREMIAS - A PORRA DA HISTÓRIA (um folhetim beat de JR Fidalgo - 14ª de 16 partes)

CAPÍTULO XXIV Olhando para o mar, ele pensou que devia achar algo mais importante pra dizer a respeito da porra daquele mar. Mas não conseguia pensar em nada mais importante, além do fato daquela porra daquele mar banhar a porra da cidade onde ele viveu grande parte da porra da sua vida. Contudo, se alguém tinha mesmo que contar a porra daquela história, ele estava disposto a tentar. Por quê?  Ele não fazia idéia. Isso, contudo, não importava. Afinal, era apenas uma porra de uma história. Era preciso, porém, encontrar alguém para escrever a tal história, já que ele mesmo, por uma série de razões que agora não vinham ao caso, nunca faria isso. Mas quem faria isso, quer dizer, quem contaria aquela história? E que história era exatamente aquela? Estar naquela cidade novamente, depois de tanto tempo, era estranho e assustador. Se havia algo sensato a fazer, depois de tudo o que passara, era nunca voltar àquele lugar. Ironicamente, foi exatament...

JOÃO e JEREMIAS - A PORRA DA HISTÓRIA (um folhetim beat de JR Fidalgo - 13ª de 16 partes)

CAPÍTULO XXII Um amigo, que lera algumas coisas que ele escrevera, lhe disse: “Você parece alguém que, sentando à beira do cais, aguarda a chegada de um navio que nunca partiu.” Naquele fim de tarde, olhando da janela do quarto os navios e barcos que passavam, era impossível não pensar em chegadas e partidas. Um poeta, que já morrera e que, como ele, sempre morara naquela cidade, também vivia lhe falando sobre sua atração por navios e pelo cais do porto. Um de seus poemas mais famosos falava justamente da angústia de ser tão fascinado pelo ir e vir das embarcações, sentindo, lá no fundo, que nunca partiria para lugar algum, pois suas raízes estavam por demais fincadas naquela terra visitada por tantos navios. O poeta cumpriu seu destino. Morreu sem partir, mas passou adiante a fascinação, a mesma fascinação que ele sempre sentia, quando, da janela, como acontecia naquele momento, acompanhava o vai-e-vem dos navios no mar. “Um velho sujo demais Sentado...