Skip to main content

Posts

Showing posts with the label Hilda Hilst

UM MERGULHO PROFUNDO NA NOITE DO DESEJO NOS VERSOS DE HILDA HILST

DO DESEJO I Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. Antes, o cotidiano era um pensar alturas Buscando Aquele Outro decantado Surdo à minha humana ladradura. Visgo e suor, pois nunca se faziam. Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo Tomas-me o corpo. E que descanso me dás Depois das lidas. Sonhei penhascos Quando havia o jardim aqui ao lado. Pensei subidas onde não havia rastros. Extasiada, fodo contigo Ao invés de ganir diante do Nada. Hilda Hilst (Jaú 1930/Campinas 2004) foi a maior escritora erótica do Brasil em todos os tempos. Poeta, romancista, contista, cronista, dramaturga... ela desempenhava muito bem em todos esses fronts literários. Chocou a todos em sua época, com seus poemas eróticos à flor da pele e suas peças e romances contundentes. Desnecessário dizer que pagou um preço alto por sua independência. No final da vida, nos Anos 90, com mais de 30 livros publicados, Hilda mesclou deliberadamente ...

A POÉTICA CONTUNDENTE DE HILDA HILST ABRE A SEMANA COM UM GOSTINHO DE FÉU

ÁRIA AMARÍSSIMA DE UM INSTANTE Ária Amaríssima de um instante SOBRE mim o sudário das coisas. Brandura extensa Camada-transparência sobre as gentes. Vê só: Eu não te olho com o teu olho que sabe Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada Tempo alongado onde te fizeste em viuvez. Não perdeste a mulher ou o homem que amavas. Amamos tanto E a perda é cotidiana e infinita. Não é isso AGORA Quando te olho e sei de um Tempo-Tarde-Madrugada alongada. Olhaste à tua frente, ou do lado ou acima de ti Ou não olhaste, ou de repente alguém entrou na tua sala E disse claramente: devo dizer que sim àqueles da Extens Union? Que sim? A quem? E sou eu mesmo, este que está aqui? Distância, sigilosa incongruência, eu mesmo? A boca do outro continua: prazo perda dez por cento solução final… Solução final final… Te dobras inteiro com muita sobriedade O documento na última gaveta, bem à esquerda… Meu Pai, Entre o papel e eu, ...

O DÉCIMO ROMANCE DA CARIOCA ELVIRA VIGNA, COMENTADO EM CANTO DE PÁGINA

A literatura urbana brasileira escrita por mulheres pode perfeitamente ser dividida em Antes e Depois de Elvira Vigna. Elvira é, sem dúvida, a primeira romancista brasileira desde Hilda Hilst a não demonstrar o menor interesse em fazer média com leitores do público feminino, escapando com galhardia desta praga que, graças aos esforços de certos lobbistas literários, assola a maioria esmagadora  da literatura produzida por mulheres neste país É uma escritora aparelhadíssima, capaz de virtuosismos narrativos impressionantes, que foge feito o diabo da cruz das armadilhas do "tom confessional" que sabota com frequência esforços literários bem intecionados. Sua prosa é árida e cortante. Seu universo temático, cáustico e desencantado.  Mesmo quando narra suas histórias em primeira pessoa, é difícil perceber em sua "voz" indícios de feminidade. Seus personagens são desprovidos de glamour. São seres urbanos com  vidas devastadas tanto em termos afetiv...