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Showing posts with the label Joaquim Ferreira dos Santos

HOJE NÃO TEM CRÔNICA (uma crônica de Joaquim Ferreira dos Santos)

Não está acontecendo nada, é apenas mais um assalto no Rio de Janeiro, uma banalidade que não será registrada no Boletim de Ocorrências da 14º DP, distante 100 metros. Os repórteres de polícia perguntarão se tem mortos no local. Diante da resposta de “negativo, operante”, desprezarão, entediados. Estão certos. Não está acontecendo quase nada. É apenas um fato de rotina que no máximo ajudará a cidade a se manter olímpica no ranking da violência. Ninguém morrerá esta noite no Leblon. Apenas o de sempre nessa modalidade cada vez mais carioca de vivenciar o perigo ali na esquina e, uma prova depois da outra, se buscar a medalha de ouro da sobrevivência. O sensacional do evento é que desta vez o cronista está na cena do crime. Ninguém contou com aquela voz de Pato Donald que os telejornais usam para não identificar a testemunha. Ele é a própria. Ali está o assaltante adolescente, a assaltada humilde e a possibilidade de que a roleta do destino, se ela girar um pouco mais para cá,...

DESCALABRO! (uma bofetada do passado de Joaquim Ferreira dos Santos)

publicado originalmente em 16 de Março de 2015) Foi-se o verão sem que ninguém ouvisse durante seus três meses uma única cigarra gritando o fim do dia. Da mesma maneira estão passando esses investigados do Petrolão, sem que ninguém lhes grite nos ouvidos as palavras certas, também desaparecidas como a voz das cigarras. São uns energúmenos! Chegou a hora, diante do despautério generalizado, de deixar de lado o bom gosto literário. As novas normas dos manuais de redação estabelecem limites para o palavrório jornalístico. Fazem muito bem. Mas diante dos últimos acontecimentos é preciso usar as palavras gordas de outrora, aquelas que nos vêm de imediato, na fluidez incontrolável do inconsciente coletivo, e, infelizmente, ninguém mais pronuncia. Sem essa de corrupção e malfeitos! Isso que estamos vendo é um descalabro! Não é um clube de empreiteiros! Trata-se de um valhacouto de bandidos! Uma das ordens que envolvem o fazer da escrita é a necessidade de, antes de ...

PERFUME DE MARESIA (uma crônica clássica de Joaquim Ferreira dos Santos)

Publicado originalmente em O GLOBO em 01 de Dezembro de 2014 Há muitas maneiras de se viajar pela cidade e uma delas, como sabem os que têm sentido a floração do abricó de macaco às margens da Lagoa, é se deixar guiar pela ponta do nariz. É subir uma ladeira às cegas, procurar as referências para identificar a rua e, pelo que entra nas narinas, pelo doce da fragrância vindo por todos os lados, chega-se à conclusão que aquela ali não pode ser outra – chegamos ao alto da Maria Angélica, no Jardim Botânico, o paraíso natural da dama da noite. Uma cidade não é feita apenas de concreto, monumentos e paisagens naturais, mas também da geografia organizada pelo olfato. É o aplicativo humano que ao descer do avião, ao pôr os pés na pista do aeroporto, recebe os cumprimentos de uma monumental lufada de maresia dizendo, welcome, você está no Aeroporto Santos Dumont. É apenas a primeira prise alucinatória da cidade. Logo o visitante estará viajando dentro da nuvem de maconha, ...

BUMBUM DE CARNAVAL (por Joaquim Ferreira dos Santos)

publicado originalmente em O GLOBO em 29 de Fevereiro de 2012 Há questões misteriosas a se resolver no carnaval, como a de vender mais cerveja e ao mesmo tempo se fazer menos xixi, mas nada me impressiona mais do que o jeito como caminham, sem olhar para a frente, arrogantes e poderosas, as bundas femininas em sua gloriosa marcha rumo à apoteose dos sentidos e ao controle do mundo. Para onde vão? De onde vieram? Por que não me levam às suas líderes e me fazem escravo de seus caprichos? A cada ano elas desfilam maiores, ao mesmo tempo firmemente compactas, plenas de harmonias e com um desenho mais bem arrumado da fantasia intrínseca que a natureza, as academias de ginástica e a evolução da ciência lhes proporcionaram. Tempos atrás, Drummond falou da bunda engraçada, sempre sorrindo, nunca trágica. Depois, Jabor viu a da Juliana Paes na “Playboy” e, melancolicamente cético, disse que ela teria o mesmo destino do PT, um dia cairia. Isso foi há dez anos. O PT po...

"DE TOM@ARPOADOR PARA ZÓZIMO@LEBLON" CRÔNICA DE JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

Operadoras de celular estão faturando às minhas custas, e eu, duro de pedra, tenho que permanecer em silêncio Meu caro Zózimo, receba daqui, diretamente da muvuca do Arpoador, toda a minha invejinha branca por você estar aí, no outro lado do calçadão, no cantinho discreto do Leblon. Que sossego deve ser essa vida de estátua longe das multidões! Não sei se você tem lido jornal, mas me colocaram no meio de uma cena infernal, na esquina dos arrastões e dos turistas internacionais. Eu virei aquela pedra no caminho de que falava o Drummond, outra vítima, coitado, dessa mania de fazerem estátua para todo mundo. Estou no meio da calçada atravancando ainda mais a vida de quem quer a simplicidade feliz de andar de um lado para o outro, sem ter que desviar de um cara feito de pedra, paradão na tua frente. Pois saiba, meu bom Zózimo, que me botaram num lugar cheio de fradinhos, antenas de operadora de celular, latões de lixo, aqueles bancos desconfortáveis para mendigo não ...

TIAZINHA PASSA O CHICOTE (por Joaquim Ferreira dos Santos)

(publicado originalmente em joaquimferreiradossantos.blogspot.com.br  em 06 de Abril de 2015) As mulheres de papel despedem-se, com a sensação do dever cumprido Chegou a hora de fechar as pernas, digo, fechar a redação e ouvir o novo clamor de sexo que pulsa no mercado editorial. Ninguém mais quer pagar R$ 19 para ver mulheres nuas nas revistas se elas estão licenciosamente grátis, uivando para a lua, de quatro no ato, a um clique digital. A banca brochou. O editor botou o IVC na mesa e garante. Não há Viagra que anime a circulação dessas meninas de papel. Definitivamente encalhadas. Chegou a hora, revista masculina, de vestir a calcinha, deixar de ser lagartixa e descer da parede. Ouve, neste momento em que anunciam o seu fim, este canto de pesar de quem dormiu com a Cristina Mortágua, sonhou com a Fábia Tafarel, acordou com a Josi Campos, e a elas foi olho, mão e admiração. Eram lindas, mais ainda em papel couchê. Zero de estria, culote ou celulite. Peguei tod...