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LEITURA DE FIM DE SEMANA: UM GENERAL NA BIBLIOTECA (por Italo Calvino)

Na Panduria, nação ilustre, uma suspeita insinuou-se um dia nas mentes dos oficiais superiores: a de que os livros contivessem opiniões contrárias ao prestígio militar. De fato, a partir de processos e investigações, percebeu-se que esse hábito, agora tão difundido, de considerar os generais como gente que também pode se enganar e organizar desastres, e as guerras como algo às vezes diferente das radiosas cavalgadas para destinos gloriosos, era partilhado por grande quantidade de livros, modernos e antigos, pandurianos e estrangeiros. O Estado-maior da Panduria se reuniu para fazer um balanço da situação. Mas não se sabia por onde começar, porque em matéria bibliográfica ninguém era muito versado. Foi nomeada uma comissão de inquérito, comandada pelo general Fedina, oficial severo e escrupuloso. A comissão iria examinar todos os livros da maior biblioteca da Panduria. Ficava essa biblioteca num antigo palácio cheio de escadas e colunas, descascado e desabando aqui e ali....

CAFÉ E BOM DIA #46 (por Carlos Eduardo Brizolinha)

"Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu. Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: "Navegar é preciso; viver não é preciso." Quero para mim o espirito desta frase, transformada A forma para casar com o que eu sou: Viver não É necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em goza-la penso. Só quero torna-la grande, ainda que para isso Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. Só quero torna-la de toda a humanidade; ainda que para isso Tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho Na essencia animica do meu sangue o propósito Impessoal de engrandecer a pátria e contribuir Para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça. NÃO EXISTE ANO MÊS, SEMANA, DIA, HORA, MINUTO, SEGU...

SEIS, PERO NO MUCHO (por Marcelo Rayel Correggiari)

Nesse mundo cansativo, onde tudo anda a esmo, quando não se sabe o destino certo, qualquer caminho vira caminho. Num universo esquisitaço pacas, onde a ordem é desautorizar os desafetos, desconstruí-los e desidratá-los, o destino final não se torna tão evidente assim, fazendo qualquer itinerário mais um rostinho bonito na multidão. Zero de funcionalidade, mas com a fina casca de gelo sob os pés, ficar parado pode virar um banho, no mínimo, congelante. No sentido de se evitar algum tipo de ‘bateção’-de-cabeça pelos mesmos caminhos que nos levam do nada a lugar nenhum, essa lida Mercearia tomou o corrente ano que, caindo pelas tabelas, acabou por se tornar ‘shabático’, e desavergonhadamente se perdeu em releituras. Das grandes contribuições do pensamento literário italiano contemporâneo, vamos de Ítalo Calvino: segundo o romancista e pensador nascido em 1923, curiosamente na cidade de Santiago de Las Vegas, Cuba, um clássico é um clássico porque ele nunca termi...

SEIS, PERO NO MUCHO (por Marcelo Rayel Correggiari)

Nesse mundo cansativo, onde tudo anda a esmo, quando não se sabe o destino certo, qualquer caminho vira caminho. Num universo esquisitaço pacas, onde a ordem é desautorizar os desafetos, desconstruí-los e desidratá-los, o destino final não se torna tão evidente assim, fazendo qualquer itinerário mais um rostinho bonito na multidão. Zero de funcionalidade, mas com a fina casca de gelo sob os pés, ficar parado pode virar um banho, no mínimo, congelante. No sentido de se evitar algum tipo de ‘bateção’-de-cabeça pelos mesmos caminhos que nos levam do nada a lugar nenhum, essa lida Mercearia tomou o corrente ano que, caindo pelas tabelas, acabou por se tornar ‘shabático’, e desavergonhadamente se perdeu em releituras. Das grandes contribuições do pensamento literário italiano contemporâneo, vamos de Ítalo Calvino: segundo o romancista e pensador nascido em 1923, curiosamente na cidade de Santiago de Las Vegas, Cuba, um clássico é um clássico porque ele nunca termi...

"CORPOS DIVINOS", A MAGISTRAL DESPEDIDA DE CABRERA INFANTE EM CANTO DE PÁGINA

por Chico Marques Nesses dias em que Cuba volta ao noticiário mundial graças à visita de Barack Obama, e poucos dias depois de sua partida ficamos sabendo de que Fidel Castro não está gostando nem um pouco do que está acontecendo em "sua ilha", é mais e mais necessário resgatar o legado do escritor cubano que foi o mais ferrenho opositor dp Castrismo, que dedicou toda a sua obra literária a falar de uma Havana que ele amava demais, e que desapareceu pouco a pouco depois da Revolução de 1959. Sim, estamos falando, claro, de Guillermo Cabrera Infante  (1929-2005), certamente o maior escritor que Cuba já produziu. De verdade. É que Italo Calvino nasceu na Ilha, mas não tem uma identidade cubana e nem ao menos escreve em espanhol -- é um escritor italiano. E  Roberto Bolaño (1953- 2003) , muito festejado em romances como Os Detetives Selvagens , revelou-se um escritor de fôlego curto nos anos seguintes, priorizando coleções de contos e empenhando muito de seu talen...