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Showing posts with the label LEVA UM CASAQUINHO 541

O RECÉM-CASADO (uma bofetada do passado em forma de crônica por Carlinhos Oliveira)

Encontro um velho companheiro de farras: — Estou indo para a Cidade — diz ele. — Agora estou trabalhando no setor imobiliário. Olha o meu dedo. (Mostra-me a aliança no anular esquerdo.) Casei. É, casei. Você lembra como a gente brigava. Pois é, mas acabamos casando. Ninguém sabe como é isso; depois do casamento, não brigamos mais. Casamos porque todo dia a gente brigava, se separava, e na semana seguinte tudo recomeçava. Ela chegou à conclusão de que a única maneira de a gente se separar mesmo era casando… O casamento foi legal. — Nos dois sentidos. Apareceu um juiz togado e ela ficou uma fera. “Ora vejam!” disse ela. “Por que não me avisaram que o negócio seria à fantasia?” O juiz ficou encabulado. Nós estávamos um pouco tontos, esta é que é a verdade. A comemoração começou de manhã cedo. Mas o casamento só ficou chato quando o juiz começou a falar aquelas palavras que todo mundo conhece. Perguntou a ela: “A senhora insiste?” Ela respondeu que sim. E o juiz perguntou: “A senhor...

SEM ÁCIDO ÚRICO E SEM GRAVIDADE (uma crônica de Marcelo Rayel Correggiari)

A vantagem de se ter uma família de leitores(as) é jamais passar perrengue sobre o que escrever na semana seguinte. Meu irmão dá umas sapecadas de (Luigi) Pirandello, por exemplo... e uma penca de páginas sem pé, nem cabeça, em famigerada rede social. Porta adentro da sala, compartilha conosco uma notícia que viu no WikiCiência. Nada espetacularmente fora-do-comum: um desses vídeos da Nasa com uma tripulação falando sobre o dia-a-dia a partir de uma estação espacial. Um troço pouco criativo e trepidante. Trepidante... trepidante mesmo, foram, como sempre, os comentários. O que corrobora a velha máxima de que o brasileiro lê muito... redes sociais. Ninguém, necessariamente, indaga o que se lê: pouco importa o conteúdo. Meu querido irmão foi atrás de comentários vindos de algum terraplanista. Nada constava. Há um grupo significativo, hoje, de pessoas que consideram que a Terra é plana (e a boa e velha anedota de que até o nome indica que ela seja plana: Planeta. Se fosse ...

PERDER-SE NA CIDADE (uma crônica de Ademir Demarchi)

O escritor alemão Walter Benjamin, um estudioso dos meandros da cidade, especialmente da Paris do século XIX, que a desvelou a partir da obra do poeta Charles Baudelaire, observou sobre que “aprender a orientar-se em uma cidade não exige muito. Mas aprender a perder-se, como alguém se perde em uma floresta, exige toda uma educação”. Benjamin lia as ruas e os becos, os pequenos detalhes que dão característica peculiar a cada lugar, as marcas deixadas pelo tempo, os traços da arquitetura, os vestígios humanos que o olhar cotidiano não vê por habituado que está com a paisagem. Ele disse também que “os nomes das ruas devem soar para aquele que se perde como o estalar dos gravetos ressecados, e as vielas do centro da cidade devem refletir as horas do dia tão nitidamente quanto um desfiladeiro e suas montanhas”. Isso talvez soe estranho a cidades recentes como as do norte do Paraná, como Maringá, em que a arquitetura, além de recente, é constantemente transformada pelas novas tecnolog...

A DIRETORA DE ARTE JÚNIOR (uma crônica publicitária de Carlão Bittencourt)

“Jovens, envelheçam” (Nelson Rodrigues) Quando alguém se apresentar a você como júnior, não vacile. Mande para chamar o pai. Imediatamente. É melhor e mais produtivo. Porque o júnior não decide nada. No máximo, faz pose. De herdeiro. Só. A única exceção que conheço é Florestan Fernandes Júnior, o filho do Mestre*. Excelente jornalista, Júnior é também uma pessoa da melhor qualidade. Solitário, meu amigo confirma a regra. Profissionalmente o problema é o mesmo. Com funcionário júnior, todo cuidado é pouco. Porque o júnior está envolvido até o pescoço naquele faz de conta profissional tão comum às empresas. Recebe uma miséria, está sempre abarrotado de tarefas e, pior, não é responsável por nada do que faz. Resumindo: dinamite pura. Uma criança com uma navalha. Vou dar um exemplo. Embasado. Houve época em que eu também era júnior. Faz tempo. Na Almap, começo dos anos 70. Após três meses de estágio na Criação, fui contratado. Redator júnior. Na Carteira de Trabalh...