Skip to main content

POEMINHA DE DOMINGO: ESTAMENTO (por Tárik de Souza)


ESTAMENTO
Tárik de Souza 


enterre o sonho 

no Jardim do Meyer 
fuligem de trem 
escarro de cigarro

a pla
ca humana viandante
soldada ao pixe fervente
sob o lusco-fusco
verde-e-rosa do subúrbio
Rio, 40 graus, de Janeiro

Pipa na Alta Tensão

serol nos trilhos
velhos quarando calçadas
purrinha, ladainha
bicho e bilhar

enterre o sonho no Jardim do Meyer

poído no diz-que-não-diz da Repúblicas
atado ao porão dos Governos

de seu (o sonho enterrado)

um pingüim de louça
e a Nossa Senhora
de zinco
em telhado quente




Tárik de Souza Farhat
(Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1946)
é jornalista, crítico musical e poeta.
Filho do escritor e jornalista Emil Farhat,
iniciou sua atividade profissional em 1968
como editor de música da revista Veja.
Trabalhou para a Folha, o Estadão, IstoÉ,
Vogue, Elle, Bizz, Opinião, Pasquim, Som 3,
Playboy e principalmente para o JB.
Fundou e editou em meados dos Anos 70
a revista "Rock A História e a Glória".
Publicou vários livros sobre música
e dois de poemas, menos conhecidos:
"E Esse Nó No Peito" (1978)
e "Autópsia em Corpo Vivo" (1979).
Palavras de Antonio Houaiss sobre ele:
“Seria agora oportuno dizer da sabedoria
com que Tárik de Souza tempera dor e alegria
(de esperança), o coloquial e o solene,
o popular e o erudito, as isotopias consagradas
e as insuspeitáveis, e as euforias, cacofonias,
harmonias, blasfêmias, imperdões e perdão.
Tempo virá em que outros se debruçarão
sobre estes poemas para colher seus cristalemas:
que agora nos baste o imediato recôndito,
sua poesia tão pungente bela.”




Comments

Popular posts from this blog

VINGANÇA (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.

A SURRA DE PICA QUE MEU IRMÃO DE DEU (um conto devasso de Emmanuelle Almada)

Meu nome é Sara e sempre fui uma menina muito caseira. Morava em um sítio no interior do Rio Grande do sul, e levava uma vidinha bem pacata. Cedo pela manhã eu tirava leite das vacas, alimentava os animais e fazia comida para meu pai e meus irmãos: um de 12 e outro de 14 anos. Sempre cuidei deles. Minha mãe morreu quando ainda eram muito pequenos, e eu assumi as responsabilidades da casa, mesmo sendo ainda uma menina. Nossa casa ficava longe da cidade mais próxima e para mim era praticamente impossível sair de lá para fazer qualquer coisa, daí vivia praticamente confinada naquele lugar. Meu pai é que saía, às vezes acompanhado por um dos meus irmãos, para levar leite para alguns mercadinhos da cidade, e passavam o dia inteiro fora. Eu ficava em casa cuidando do meu irmão menor, que era muito apegado a mim, me seguia onde quer que eu fosse. Era um menino franzino, de pele pálida e cabelos lisos, negros. Eu admirava a ingenuidade daquele anjo, sempre muito prestativo e car...

DOMADA PELO SEXO (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.