Wednesday, February 15, 2017

ÚLTIMA CHANCE PARA ASSISTIR "A CRIADA" E "A ESPERA" ANTES QUE SAIAM DE CARTAZ


"A CRIADA": UMA HISTÓRIA SENSUAL DE AMOR E CRIME
por Carlos Cirne para Colunas & Notas

Na tradição oriental de apresentar o mesmo conto de vários pontos de vista diferentes, “A Criada”, novo filme de Chan-wook Park – o mesmo diretor dos já clássicos “Oldboy” (2003) e “Lady Vingança” (2005) -, nos conta sua história, a partir da visão de três diferentes personagens, em três atos, cada um mais surpreendente que o outro.

No inspirado roteiro, de autoria do diretor e de Seo-kyeong Jeong, que transpõe a história original do romance de Sarah Waters - "Fingersmith", 2002 – da Londres do século 19 para a Coreia do Sul na década de 1930 (durante a Ocupação Japonesa), a jovem e iletrada Sook-Hee (Tae-ri Kim) é enviada para trabalhar como criada pessoal da nobre Lady Hideko (a bela Min-hee Kim), herdeira milionária japonesa, que vive sob os cuidados do rígido tio Kouzuki (Jin-woong Jo).

Sook-Hee, na realidade, está incumbida de ganhar a confiança de Hideko e influenciá-la a se apaixonar pelo falso Conde Fujiwara (Jung-woo Ha), que pretende desposá-la, tomar posse de sua fortuna, e abandoná-la num manicômio, fugindo com Sook-Hee.

Tudo caminha bem, até que a relação entre Sook-Hee e Hideko começa a se aprofundar, pondo em risco os planos do Conde. E é justamente neste ponto em que a maestria do roteiro pega o espectador de surpresa, revelando as diversas camadas que compõem esta história de amor e crime.

Ninguém é completamente inocente, ou até culpado. Sook-Hee não é apenas um instrumento nas mãos do Conde; Hideko não é tão inocente quanto se poderia supor; e o Kouzuki, o tio, não é o poço de virtudes que aparenta. Sem falar na obtusidade de Fujiwara, em sua narcisista segurança.

Apoiado em estonteantes fotografia (de Chung-hoon Chung), direção de arte (de Seong-hie Ryu) e figurinos (de Sang-gyeong Jo), o filme de Park é um poema visual, revelando inclusive insuspeito humor em inúmeras e inesperadas situações. Com o melhor de dois mundos – Oriente e Ocidente – Park consegue envolver o público a ponto de arrancar o tapete de sob seus pés sem derrubá-lo.

Com alta carga de erotismo (sem apelar para o mau gosto), e soluções inspiradas em termos de “como contar uma história”, “A Criada” é programa obrigatório para quem gosta de bom cinema. Não perca!



A CRIADA
(Ah-ga-ssi, 2016, 144 minutos)

Direção
Chan-wook Park

Elenco
Min-hee Kim
Tae-ri Kim
Jung-woo Ha
Jin-woong Jo
Hae-suk Kim

Em cartaz no Cinespaço Miramar Shopping









"A ESPERA" REVELA QUE EXISTE UM TEMPO
NA VIDA DE CADA UM DE NÓS
por Carlos Cirne para Colunas & Notas


O filme de estreia em longas do italiano Piero Messina, “A Espera” (L'attesa, 2015), pode ser recebido como um pequeno tratado sobre o tempo. O tempo de cada um, de resposta e de restabelecimento.

Anna (Juliette Binoche), que acaba de sofrer uma grande perda, recebe a visita de Jeanne (Lou de Laâge), namorada de seu filho, que ficou de encontrá-lo ali para a comemoração da Páscoa. O cenário: as assombrosas paisagens da Sicília, extremo sul da Itália. De uma sinuosa estrada cavada em rocha vulcânica a enevoados campos, tudo leva à contemplação e à pausa.

Enquanto aguardam a chegada de Giuseppe (Giovanni Anzaldo), vão tateando o terreno a percorrer entre elas. Anna mais reservada, em processo de cura interna pessoal, Jeanne mais aberta e solar. Entre elas, uma grande série de perguntas não respondidas, como se meros olhares fossem capazes de resumir seus momentos pessoais.

Além das duas, apenas a presença do soturno caseiro Pietro (Giorgio Colangeli), uma sombra quase muda que ronda a propriedade, em constante e velado confronto com Anna. E a repentina aparição de dois belos jovens, Giorgio (Domenico Diele) e Paolo (Antonio Folletto), que Jeanne acaba convidando para um jantar organizado por Anna.

O diretor não se preocupa, em momento algum, em apressar qualquer tipo de reação das personagens frente ao confronto que se estabelece. Anna recebe Jeanne em seus termos, se afeiçoa à moça e transfere para ela seu carinho naquele momento de dor. Esta aceita a deferência, enquanto aguarda pela chegada do namorado, com quem não consegue se comunicar. Esta inacessibilidade começa a incomodar, na medida em que o domingo de Páscoa se aproxima.

O tempo lento, a falta quase absoluta de ruídos ou trilha (em contraposição aos momentos onde a música invade a cena), os longos olhares sem resposta: elementos de um conjunto que emula o tempo exato de cada um, ao processar e digerir situações adversas. E os desempenhos do elenco, estudados milimetricamente, reforçam esta impressão. Confira.


A ESPERA
(L'attesa, 2015, 110 minutos)

Direção
Piero Messina

Elenco
Juliette Binoche
Lou de Laâge
Giorgio Colangeli
Domenico Diele
Antonio Folletto
Giovanni Anzaldo

Em cartaz no Cinespaço Miramar Shopping




Carlos Cirne é crítico de Cinema
e há 14 anos produz diariamente
com o crítico teatral Marcelo Pestana
a newsletter COLUNAS E NOTAS,
de onde o texto acima foi colhido.








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