Thursday, December 1, 2016

É LOUCO, MAS NÃO RASGA DINHEIRO (uma crônica publicitária de Carlão Bittencourt)


“Todo patrão é filho da puta”.
(Graciliano Ramos)



Entrei em propaganda pela porta da frente: na velha Salles Inter-Americana, ainda na Rua Teixeira da Silva, em 1972.
Certo dia, no meio de um bate papo sobre as agências da moda, alguém do estúdio me disse que a tal de Gênio era ótima, mas que o dono, Gênio, era louco. De pedra. Discordei. Fácil. Onde se viu um maluco criar uma agência espetacular como a Gênio Propaganda?
Pensei em minha avó Joana, mineira de Uberaba, dizendo, matreira: “É louco, mas não rasga dinheiro.”

Primeira impressão.

Um ano depois, conheci a fera insana. De perto. Indicado por um parente, cliente fortíssimo da agência, fui lá pedir estágio na Criação.
Cheguei às 10 da manhã. A recepcionista logo me levou até uma sala, onde um homem, de maiô, tomava banho de sol. Com uma arma na cintura. Era Gênio. Lógico.
A primeira impressão é a que fica. Para sempre. A minha foi a de que ele não era pirado, mas um oportunista. Nato. Gênio saltou da cadeira de praia e, nariz em pé, me levou até a sala de reuniões. No caminho me crivou de perguntas absolutamente non sense. Veja a lista de abobrinhas!

  • Sabe atirar?
  • Pratica alguma luta?
  • Tem medo do que?
  • Já comeu o cu de uma negra, dessas quase azuis?
  • Fuma maconha?
  • Tem pau grande?

Com apenas dezenove anos, achei as perguntas engraçadas.
Dei risada. Era evidente que o cara estava fazendo tipo para cima de mim. Ele não gostou. Quis saber se eu queria mesmo o estágio. Disse que sim. Bravo, sugeriu , então, que eu respondesse logo as questões. O que fiz.
À altura.

-Atiro pedrinhas no canal.
  • Briga de rua.
  • Só louco não tem medo.
  • Comi, mas não entrego os nomes nem no DOI-CODI.
  • Só fumo Minister.
  • Descomunal. E ri.

Gênio ficou puto. Gritou que não tinha tempo a perder “com esses
cabeludos de merda, que pensam que são... gênios!”. E emendou:

  • “Só aqui na Criação tem uns dez!”
Rubro, foi saindo da sala. E, junto com ele, lá se foi o meu estágio.


Segunda impressão.

Quinze anos depois, eu estava em casa, de férias. Tirei duas
semanas de folga para esfriar a cabeça. O telefone tocou. Era Gênio. Queria que eu fosse trabalhar na agência dele. Apesar de empregado, fui até lá.
Gênio não se lembrava de mim. Evidente. Mas, acatou a indicação
de um diretor de arte meu amigo e me ligou. Pela impressão, continuava o mesmo. Nariz em pé, saiu do elevador de bermudas, sandálias e camiseta. Detalhe: com uma pistola automática na cintura. Assim, me levou à Criação.
O diretor de arte, velho companheiro, ficou contente por me rever. Relembramos os tempos em que trabalhamos juntos por quase dois anos. Bons e maus momentos. Como tudo na vida. Sempre.
Percebendo a empatia, Gênio me contratou. Deixamos para acertar os pequenos detalhes sórdidos no dia seguinte. Coisas insignificantes como, por exemplo, o valor do meu salário. Lembrei outra vez da frase de minha avó: “É louco, mas não rasga dinheiro.”
É óbvio, que o malandro me enrolou uma semana, até se dignar a tocar no assunto “dinheiro”. Mas, com um amigo por perto, os dias passaram rápido. Na sexta-feira, Gênio mandou me chamar.
Foi simpático. Demais. Depois, ficou sério quando entrou no tema grana. Quis saber quanto eu queria para trabalhar na agência. Respondi que já trabalhava lá. Há uma semana. E pelo mesmo salário do diretor de arte. Gênio bradou:

  • Você sabe quanto ele me custa por mês?????

Falei que sim. E que meu preço era o mesmo. Ele desistiu da minha contratação, mas me pagou uma semana cheia. Ou seja, um quarto do ótimo salário do diretor de arte de primeiro time.
Nada mal para quem estava tranqüilo, de férias, trabalhando em uma ótima agência e que só tinha ido visitar um amigo.

Pequena pausa para os comerciais.

Outubro de 1995, Expressão Brasileira de Propaganda. Eu fazia dupla com o diretor de arte Luís Boralli, tendo Sérgio Arapuã de Andrade na direção de criação. Bjarne Norking também estava lá, assim como Héctor Brenner, na presidência. Ou seja, eu trabalhava com 4 amigos.
A agência era sólida. Os clientes eram demais. Veja se hoje isso seria possível para uma agência “média”. A Expressão tinha Varig, Tramontina, Banco Sudameris, Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, Canetas e Isqueiros Bic, entre outras contas grandes.  Dinheiro não era problema. Era mato! O problema é que o Demo não gosta de ver ninguém em paz. Perversidade é com ele mesmo. Vacilou, o bicho ruim apronta. E aí, é um Deus nos acuda!
Não deu outra. Certo dia, a má notícia chegou voando: a Young & Rubican havia comprado a Expressão. Leia-se, os clientes da agência. Acima de tudo, a Varig. Hehe.
Na mesa de negociações, as contas indicavam que, nove vezes fora, 130 funcionários iriam para o olho da rua. Do dia para a noite. Foi o diabo Um perereco. Fodeu a Mariquinha!
Farinha pouca, meu pirão primeiro. Héctor Brenner e Hélio Abud, com anos de casa (e de janela!), se garantiram, segurando a Tramontina. No que fizeram muito bem. Foram para Porto Alegre. E bota alegre nisso! Só a Young Rubican não achou graça. Nenhuma.
O resto da turma, a patuléia, correu atrás do prejuízo. Do jeito que dava. Fim de ano. Jogo duro. Quem puder mais, chora menos.
Um mês depois, o Arapa me ligou. De Florianópolis. Estava na EXA, uma agência pequenina, mas cumpridora, que possuía a maior conta daquele estado: a FIESC – Federação das Indústrias de Santa Catarina. Um mega cliente. Resultado: lá fui para a capitania de Esperidião Amin, hereditária até hoje, defender o sagrado direito das minhas crianças ao Nescau.
Tinha tudo para dar certo, não fosse a distância da família. Depois de quase 3 meses de trabalho (e de ter criado a peça que recebeu de Eugênio Mohallen o voto de  Anúncio do Ano de 1995, no Prêmio Colunistas/Região Sul), a saudade me pegou. Em cheio.
Com o coração nas trevas, ligava a toda hora para São Paulo, pedindo resgate. Fui salvo pela solidariedade de dois amigos, Nelson Catto e Bjarn Norking. Onde eles estavam? Na agência do Gênio!

Terceira impressão.

“Deve ser algum carma”, pensei. Mas fui encarar a peça. De novo.
Como sempre, ele me recebeu bem. E, dessa vez, por segurança, acertei o salário de início. Depois, tratamos do resto. Gato escaldado.
A agência tinha duas contas fortes. Contudo, Gênio queria mais. Muito mais. Para isso, precisava prospectar.
Alguns meses depois, ele nos chamou para uma reunião. Disse que o Banespa iria entrar em licitação. E queria a nossa opinião sobre a participação ou não da agência. Tinha dúvidas sobre se valeria à pena. Confessou:

  • Ainda mais com a minha imagem no mercado...
Ao falar, fui franco. Disse que em toda concorrência existe malandragem. Mas que duvidava que aquela tivesse. Afinal, o Banespa era a menina dos olhos do então governador, Mário Covas, um homem honrado, para se dizer o mínimo, se comparado aos outros políticos.
Meu voto foi para entrarmos na briga. Fiz até uma brincadeira, citando o tema do filme A Dama de Vermelho, que alertava: “Cuidado com o que deseja, porque você pode conseguir”.
Gênio se empolgou. Prometeu 50 mil dólares de prêmio para cada profissional envolvido no job, em caso de vitória. Ou seja, eu e os dois diretores de arte, pela Criação, e Gordo, pelo Planejamento. Uma fortuna!
Com aquela verdadeira carta de alforria a título de estímulo, pusemos mãos à obra. Foram 20 dias de trabalho, 18 horas por dia, até a data de entrega dos 3 envelopes. Sempre com o Gênio em nossos calcanhares. Uma insanidade.
Além da nossa agência, outras 20 e muitas também disputavam a conta de 16 milhões de reais! Briga de cachorro grande. Pitt Bull seria considerado cachorrinho de madame. Um pet.
Dada a largada do julgamento, o tempo foi passando devagarinho. A cada semana, algumas agências ficavam pelo caminho. Dois meses depois, sobraram apenas três, entre elas, a nossa. Finalmente, numa segunda-feira ensolarada, saiu o resultado. Ganhamos, porra!
Todo mundo comemorou. Do térreo ao último andar, todos festejaram a conquista do Banespa. Todos, menos Gênio, que se limitou a balbuciar um chocho “Parabéns!” Depois, sumiu por uma semana.
A secretária nos dizia que ele estava em casa, planejando uma reestruturação completa da agência para atender o novo cliente.
Os mais malvados, porém, sugeriam que ele estava fazendo as contas do que iria faturar. “É louco, mas não rasga dinheiro!” O sábio ditado me ocorreu outra vez.
Quando voltou, Gênio havia mudado. Para pior. Se isso fosse possível. Parecia que tinha perdido o Banespa, e não ganho. O cara era a mesma “persona nephasta” que eu havia conhecido vinte anos antes.
O nariz em pé estava lá, inconfundível.
Fui falar com o Gordo, o planejador da campanha. Ele riu. Disse que o problema é que Gênio tinha se arrependido da promessa de premiação. E me confidenciou que o patrão não pretendia cumprir a palavra. Pelo contrário.
Depois de um mês de constrangimento, Gênio decidiu se livrar das testemunhas. Para acabar com o embaraço. A primeira vítima foi o próprio Gordo, demitido sem a menor justificativa. Mas ele recebeu tudo, inclusive o prêmio. Gordo sabia demais.
Um dos diretores de arte foi a próxima vítima. Mandado embora sumariamente. Sem os tais 50 mil dólares. Claro. Pensei comigo: “Sou o próximo.” Mas fiquei na minha.
Uma semana depois, Gênio me pediu que indicasse um Diretor de Criação para a agência. Estranhei o pedido. Porque ali só ele mandava. Mas sugeri um nome forte. Gênio gostou da idéia. Na hora.
Em poucos dias, ele e o novo Diretor de Criação entraram em nossa sala. Mal chegou, Gênio lavrou a seguinte pérola da maldade:

  • Esse aqui é o meu asilo de Criação:
só tem velhinho incompetente e em fim de carreira.
Tem gente que mija no fraldão geriátrico...

A agressão foi tão gratuita, que o novo funcionário ficou absolutamente passado. Não satisfeito, Gênio completou:

  • E se alguém aqui discordar, é só levantar a mão,
que eu mando embora e pago tudo a que tiver direito. Já!

Na mesma hora, alguém respondeu:

  • Camoniboy, tô fora!

Fui eu. Mas só me dei conta alguns segundos depois. Como não
esperava nenhuma reação, Gênio saiu gritando que não era bem assim, que não pagava nada a ninguém. E se trancou em sua sala, batendo
a porta.
Aliviado, liguei para o DP - Departamento Pessoal, e expliquei que tinha sido mandado embora. Como combinado, pedi para fecharem logo
a conta. E passarem a régua! Em cinco minutos, peguei minhas coisas.
O financeiro, então, me chamou. Sem graça, confessou que Gênio não honraria a promessa do premio. Nunca. Nem no DOI-CODI. No mais, se propunha a pagar tudo. Que fazer? Para encerrar logo o assunto, topei
a oferta.
Gênio ficou tão alegre que veio se despedir de mim. Fez questão fechada de levar minhas coisas até o carro. No caminho, me agradeceu muito etc e tal e o escambau. De Madureira. Fui embora.
Ainda me lembro da imagem, bizarra, no retrovisor. O velho Gênio “do Mal”, de camiseta, calça de ginástica e tênis, com uma pistola automática no coldre, acenando para mim da calçada da Brigadeiro Luís Antonio.

Certa estava minha avó: “É louco, mas não rasga dinheiro!”


Carlão Bittencourt
é redator publicitário
e cronista.
É autor de
"Pela Sete - Breves Histórias do Pano Verde"
(2003, Editora Codex),
um mergulho no universo
dos salões de bilhar de São Paulo
e escreve todas as quartas
em LEVA UM CASAQUINHO.

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