Monday, December 5, 2016

POEMINHA DE SEGUNDA: UM POUCO ANTES (um texto de Ferreira Gullar)



Quando já não for possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
pensa
ao veres no horizonte
sobre o mar de Copacabana
uma nesga azul de céu
pensa que resta alguma coisa de mim
por aqui
Não te custará nada imaginar
que estou sorrindo ainda naquela nesga
azul celeste
pouco antes de dissipar-me para sempre



Vira e mexe, isso acontece. Algum curioso o avista e pergunta: “É você, o poeta Ferreira Gullar?” “Às vezes”, devolve nosso entrevistado. Logo ele, que deixou o Maranhão aos 21 anos para se tornar um dos nossos mais famosos escritores, ensaístas, tradutores, dramaturgos, críticos de arte... “Não trabalho em poesia. Isso não se faz por vontade”. Este, aliás, foi o caso de sua obra mais conhecida, Poema Sujo (1976), que, escrito no exílio, voltou por linhas tortas ao Brasil na voz do próprio poeta, numa gravação feita pelo amigo Vinicius de Moraes.

Gullar, na verdade, nasceu José Ribamar Ferreira em São Luís, em 1930. Ainda jovem resolveu adotar o sobrenome da mãe, já que uns poemas de qualidade duvidosa assinados por um certo José Ribamar Pereira estavam sendo atribuídos a ele. Quarto de onze irmãos, Gullar se mudou definitivamente para o Rio de Janeiro em 1951. Foi locutor de rádio, editor de revistas literárias, revisor de O Cruzeiro, jornalista e crítico no Diário Carioca e no Jornal do Brasil. Enquanto isso, levou adiante um projeto de experimentação: foi precursor do concretismo paulista e autor do Manifesto Neoconcreto (1959). Em 1961, deixou a vanguarda de lado em nome do engajamento político. “Eu me envolvi com a poesia política a partir de um contexto social. Mas não é a política que define a poesia”, apressa-se a esclarecer.

Nos últimos anos, Ferreira Gullar se dividiu entre os poemas, análises e reflexões sobre artes plásticas, as crônicas semanais para a Folha de S. Paulo e os muitos debates para os quais é convidado. Nesta conversa, nosso entrevistado fala um pouco de cada um desses afazeres. Para ele, a crítica de arte desapareceu, a arte contemporânea não faz jus ao nome e a reeleição é um perigo. Pois é: até este último fim de semana, quando faleceu de pneumonia, Gullar preservou intacto o espírito crítico que fez dele um dos principais e mais controversos pensadores do país.

A entrevista abaixo foi realizada em 2010 e publicada pela Revista de História.

REVISTA DE HISTÓRIA
O que significa para você ter recebido o Prêmio Camões este ano?

FERREIRA GULLAR
Bom, eu tenho pouco a dizer sobre isso porque o prêmio tem a importância que é atribuída a ele. Eu só posso dizer que fiquei muito contente com o reconhecimento do meu trabalho.

REVISTA DE HISTÓRIA
Você ficou 12 anos em silêncio entre os livros Barulhos (1987) e Muitas Vozes (1999). Na época, chegou a dizer que pensou que fosse parar de escrever poemas, mas que isso fazia parte do processo de criação. Como é esse processo?

FERREIRA GULLAR
Na verdade, o que aconteceu entre o Barulhos e Muitas Vozes é comum acontecer. Não se trata de silêncio. Eu escrevo pouco e, consequentemente, não posso publicar um livro por ano, porque às vezes fico um ano inteiro sem escrever poema algum. Então, tenho que esperar um tempo até considerar que o livro tenha um número suficiente de poemas ou que o livro esteja pronto, que o que ele expressa está, de fato, concluído. Não é que eu fique em silêncio.

REVISTA DE HISTÓRIA
Trabalha em algum poema neste momento?

FERREIRA GULLAR
Eu devo publicar um livro de poesias este ano. Mas preciso dizer: não trabalho em poesia. Isso não se faz por vontade. Poesia é uma coisa que as circunstâncias determinam. Eu não posso decidir escrever um poema hoje à tarde. Não vai acontecer. O poema, pelo menos no meu caso, nasce de um espanto, de uma descoberta inesperada. Às vezes, fico um ano inteiro sem escrever sequer um poema. Então, preciso dar tempo ao tempo até ter certeza de que o livro já tem um número suficiente de poemas ou de que o que ele expressa está de fato concluído. Por isso, quando me perguntam se sou o poeta Ferreira Gullar, eu respondo: “Às vezes”.



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