Tuesday, March 15, 2016

BYE BYE, LITTLE GIRL

um conto de Juliana Rosano


Devo ter adormecido em algum momento entre o fim do jantar e quando a aeromoça recolhia as bandejas vazias. Ai, desculpe, não se diz mais aeromoça, agora é comissária de bordo. Acordei com o burburinho dos outros passageiros. Quando consegui fazer algum sentido, percebi que falavam da turbulência ocorrida durante o voo. Eu não tinha percebido nada. Tomei um lormetazepam durante o jantar e aquele pequeno comprimido branco me tinha deixado nocaute total. Fazia tempo que eu não tomava um, acho que isso fez mais efeito. Não, eu não tenho medo de voar, o que acontece é que eu já estava de saco cheio de pegar avião, espremida na poltrona incômoda, as longas esperas nos saguões dos aeroportos. No começo tudo é novidade. Depois de um tempo, isso tudo enche o saco.

Senti a aeromoça tocando o meu ombro, me virei e ela me perguntou se eu queria café ou chá. Já estavam servindo o café da manhã. Entre uma porcaria e outra, preferi um café. Ela me passou a taça fervendo e a coloquei naquele espaço redondo da bandeja. Logo depois veio outra aeromoça com o carrinho da comida, sorridente me entregou uma bandeja. O normal de um café da manhã em um avião: um omelete meio ressecado, um iogurte de morango, um pãozinho amanhecido, uma porção de manteiga e pouca coisa mais. Nesse momento, olhei pela janelinha e vi que o avião entrava em uma nuvem branca enorme, daquelas bem densas.

Em um instante ele deu um solavanco no ar. Todo mundo começou a gritar, o meu café da manhã subiu uns centímetros e caiu espatifado entre as minhas pernas e o assento na minha frente. A xícara voou longe, ainda bem que eu ia vestida de preto, como sempre fazia. Os demais passageiros gritavam, as crianças choravam, as aeromoças tentavam manter a calma, mas era impossível. Um gordo de terno e gravata sentado do outro lado se engasgou com a comida, parecia que ele ia morrer — e não por um possível acidente. O judeu ortodoxo que estava do meu lado começou a rezar em íidiche, balançando a cabeça para frente e para trás. Foram uns cinco segundos de histeria coletiva. Olhei mais uma vez pela janelinha e internamente comecei a recitar um mantra que me acalma nessas situações. De repente, era como se nada tivesse acontecido. O avião tinha saído daquela nuvem nefasta e agora seguia ao rumo final.

Senhores passageiros, informamos que dentro de poucos instantes estaremos aterrisando no Aeroporto Internacional de Viracopos, a temperatura estimada é de... Não continuei prestando atenção ao que dizia o comandante, mas estranhei que iríamos aterrissar em Viracopos. Não dei muita importância, as neblinas eram comuns em Guarulhos e talvez por isso o voo tivesse sido desviado. A aterrisagem foi tranquila, superando as expectativas. Uns passageiros mais exaltados começaram as bater palmas enquanto o avião taxiava na pista até encontrar um terminal disponível. Eu e o judeu nos entreolhamos, fiz um sinal da paz com os dedos e disse:“Shalom!”. Eu sempre quis dizer shalom a um judeu, mas nunca tinha tido a oportunidade. Acho que ele ficou feliz com o meu gesto inesperado, me sorriu de volta acenando com a cabeça, levantou, pegou a pasta de couro preto e foi embora. Demorei um pouco mais, esperei que os outros passageiros saíssem. Finalmente me levantei, peguei a minha bagagem de mão do compartimento de cima e deixei o avião.

No terminal de chegada eu via tudo meio nebuloso, tudo estava em um tom de sépia, parecia uma polaroid borrosa, dessas antigas. Esfreguei os olhos, maldito lormetazepam, ainda estava meio de ressaca daquele minúsculo comprimido. Vi como famílias se abraçavam, casais enamorados se beijavam, avós entregavam presentinhos aos netos. Fiquei olhando a multidão, um pouco atordoada, mas já via tudo com mais claridade. Me coloquei em um canto, meu irmão deveria estar me esperando, mas ele não estava ali. Tirei o celular da bolsa, liguei o aparelho. Esperei uns segundos até que entrassse um sinal, mas me apareceu um aviso “sinal não encontrado”. O iphone de centenas de euros deveria funcionar em outro país. Talvez o meu irmão estivesse a caminho de Viracopos, imaginei que ele chegaria em Cumbica, veria o aviso do desvio e viria para cá.

Comecei a prestar mais atenção nas pessoas ao meu redor. Havia algo estranho. As roupas são um grande indicador dos tempos em que vivemos. Estilos marcam épocas e por mais fashion revivals que haja, era estranho que todo mundo parecia saído de um filme dos anos 80. Senti um arrepio, comecei a ficar meio assustada com tudo aquilo. Notei que ninguém usava um aparelho celular nem tablets. Quanto mais olhava ao meu redor mais me assutava. Uma ideia aterroziante começou a passar pela minha cabeça, mas tentei me tranquilizar e dizer para mim mesma que aquilo não seria possível. Fui até o bar do terminal e perguntei para a balconista:

"Desculpa, mas que dia é hoje?"

Ela me olhou meio atordoada:

"16 de setembro."

"E de que ano?"

Ela me olhou abestalhada:

"De 1984."

"Ah, desculpe, são muitas horas de voo", tentei me explicar, mas quanto mais tentava, mais rídicula parecia.

Ela não parecia preocupada com aquela doida que perguntava em que dia e ano estávamos. Ela deu de ombros e foi atender outro cliente. Vi em cima do balcão uma Folha de S.Paulo. Fui direto à data, domingo, 16 de setembro de 1984. Mais uma vez esfreguei os olhos e pensei que aquilo não poderia estar acontecendo. Era muito bonito nos filmes e nos livros, mas impossível na vida real. Folheei algumas páginas do jornal, até a publicidade do antigo Mappin aparecia: um violão Gianinni, um aparelho 3 x 1 Philips, um autorradio Bosch, colêtaneas dos maiores nomes da MPB, obviamente tudo em vinil. Tudo muito vintage. Mas que naquele exato momento era tudo atual. De repente, caiu a ficha. Se realmente estávamos em 1984, obviamente o meu irmão não iria me buscar. Naquele ano ele nem tinha carteira de motorista. Uma das coisas que me preocupavam era como eu ia poder fazer qualquer coisa sem dinheiro. Abri a carteira e vi as notas de euros, agora totalmente inúteis. O euro só entraria em circulação dezoito anos depois. Comecei a ficar desesperada. Tinha o meu cartão do banco, mas não sabia se em 1984 já existiam caixas automáticos. E se existiam, o meu cartão não ia funcionar, porque em 1984 a minha conta ainda não existia. Entrei num redemoinho de pensamentos, numa paranoia, tive vontade de gritar, mas me contive. Ninguém ia acreditar e talvez me prendessem ou sei lá o quê. Comecei a chorar enquanto vasculhava a bolsa. Não sabia o que estava fazendo. Estivesse fazendo o que fosse, tentava encontrar um jeito de me acalmar. Em um momento de lucidez, lembrei que a minha carteira tinha outro compartimento, fechado a zíper. Abri e ali estava a minha salvação imediata. Uns mil dólares que tinham sobrado da última viagem aos Estados Unidos. Quando estava em Madri, em casa, arrumando as malas, quase deixei os dólares na gaveta. Coisas do acaso. Falando em Madri, eu queria estar de volta em casa, ao meu bonito ático na Calle Fuencarral, perto da Glorieta de Bilbao, no bairro de Chamberí. Queria estar no conforto da minha casa, com os meus gatos e o meus chihuahuas. E em 2016.

Aliviada, fui à casa de câmbios do aeroporto. O rapaz se supreendeu com todo o dinheiro que entreguei.

"A senhora tem certeza de que quer trocar tudo isso agora?"

Lembrei que as taxas do aeroporto nem sempre eram as mais convenientes.

"Não, só a metade."

Respirei aliviada quando as notas deram positivo no teste de autencidade. O rapaz me devolveu os outros quinhentos dólares, e o resto em cruzeiros daquela época. Eram muitas notas para guardar na carteira. Assim que peguei o dinheiro, joguei dentro da bolsa e fui embora. Antes de sair do aeroporto, voltei ao bar. Pedi um café com leite e um pão de queijo.

O taxista aceitou me levar até São Paulo. Lá, eu já me arranjaria. No fim das contas, acabei pegando outro táxi em São Paulo, que acabou descendo a serra. Era um Chevrolet Monza, último modelo, um luxo para aqueles tempos. Distraída pela viagem em si e pelo cansaço, quase esqueci de avisar ao taxista da entrada no Jardim Casqueiro. Outro solavanco, mas ele conseguiu entrar na Avenida Brasil. Fui indicando o caminho até chegar onde deveria ser a casa da minha mãe. Mas ao chegarmos ali o que havia naquela esquina era um terreno baldio enorme. Merda, pensei, estávamos em 1984, a casa da minha mãe só foi construída quase dois anos depois. Pedi desculpa ao taxista, comentei que havia vivido muito tempo fora, no exterior, e que algumas coisas deveriam ter mudado. Ele foi bastante solícito e disse que me levaria aonde eu quisesse.

Então, eu o guiei pela Avenida Beira-Mar até o final da Avenida Brasil. Na Praça Olímpio de Lima estava a casa da minha avó. Senti um calafrio, pensando que poderia reencontrá-la e reencontrar tanta gente que já não vivia mais em 2016. Fiquei assustada, e o taxista perguntou se eu estava bem. Pedi que parasse justo do outro lado da praça. Não podia olhar para o outro lado, tinha medo do que poderia ver. Virei a cabeça e vi o Del Rey Ghia azul da minha mãe, estacionado em frente ao portão de madeira. Claro, era domingo. Típico dia de almoço na casa dos avós. Dia de frango assado com batatas, macarrão e guaraná Antarctica, daquelas de garrafa de vidro, que tinha que devolver o vasilhame na padaria. Então, eu deveria estar ali também. Não me atrevi a descer. Pedi ao taxista que me levasse a Santos, ao Gonzaga, mais precisamente.

Durante o caminho, ele puxou conversa.

"Voltando do exílio?"

Eu não entendi o que o taxista quis dizer, demorei uns segundos para responder.

"Ah, não, por trabalho", inventei na hora. Ainda que a ideia romântica do exilado que voltava à terra natal depois de tanto tempo de alguma forma me seduzia.

"Faz uns anos eu ganhei na loteria e fui a Portugal, Espanha, França, Itália."

"Ah, que bonito!"

"A minha mulher queria ir à Holanda também. Mas preferimos guardar e comprar a licença do táxi."

"Bem pensado."

"E onde a senhora mora?"

"Isso eu queria saber...", respondi desalentada.

"Como?"

Eu já não sabia que desculpa dar. Ainda bem que não precisei responder. O taxista parou na porta do Hotel Parque Balneário/Holiday Inn, ali no fim da Ana Costa, quase esquina com a praia. Abri a bolsa e entreguei quase todas as notas de cruzeiros que eu tinha. Ele me olhou com cara de espanto, me devolveu algumas notas e me agradeceu dando um forte aperto de mão.

"Eu é que agradeço e desculpe alguma coisa", respondi.

Entrei pelo saguão do hotel, fui à recepção, por sorte tinham quartos disponíveis. Enquanto a recepcionista ia me perguntando os meus dados pessoais para o registro, eu dentro da minha cabeça me perguntava como ia pagar a conta.

"Quantas noites a senhora vai ficar?"

Aquela pergunta me fez despertar.

"Eu não tenho a menor ideia... Um mês ou dois, talvez..."

A recepcionista me olhou com cara de espanto. Eu já tava me acostumando que todo mundo me olhasse com cara de espanto.

No fim ela me disse que tinham apartamentos disponíveis e o máximo que poderia acontecer é que eu tivesse que mudar de algum quarto em algum momento da minha estadia. Ela completou dizendo que teria que me cobrar pelo menos duas noites e depois eu pagaria o resto no final da estância. Respondi dizendo que ela poderia me cobrar pelo menos um mês inteiro. Outra vez, outra cara de espanto. Abri a carteira e entreguei o meu cartão de 2016, com um chip dourado na frente e mais finos que os cartões de crédito da época.

"Aqui recebemos muitos estrangeiros, estamos acostumados com esse tipo de cartão", disse a recepcionista, pegando aquela máquina antiga onde passavam os cartões de crédito, e faziam uma cópia mimeografada de duas folhas e você assinava uma das cópias.

Parecia que tinha ido tudo bem com o pagamento, e se não, eu já me arranjaria. Terminado o check-in, subi ao quarto, não era o mais luxuoso, mas estava bastante bem. Aquela decoração anos 70/80, com aquele carpete, eu não tinha nenhum tipo de alergia, assim que não me importava. Tomei um banho e me senti exausta. Dormi até o dia seguinte.

Quando acordei, sim ainda estava ali naquele quarto do Hotel Parque Balneário/Holiday Inn. Me vesti e desci para tomar o café da manhã. Não tinha planejado o meu dia, assim que ao terminar o café não sabia muito bem o que fazer. Era uma segunda-feira ensolarada, e bom, já que eu não tinha nenhum compromisso, fui andar na praia. Comecei no calçadão, mas que diabos, decidi ir pela areia, quase pela beira d'água. Fui observando os edifícios da orla; prestando atenção naqueles ali do Boqueirão, aqueles edifícios majestosos construídos nos anos 50, os jardins, os chapéus de sol. Eu, em Santos, em 1984. Se realmente estávamos naquela época, eu ainda moraria na Ponta da Praia. Quase chegando ao Canal 6, não tive coragem de continuar. Dei meia-volta e retornei ao hotel.

Essa foi a minha rotina nos primeiros tempos, pela manhã eu ia andar na praia, às vezes eu mudava e ia em direção a São Vicente. Teve um dia que eu tentei subir a Ilha Porchat a pé, mas desisti logo depois de avançar uns metros. Aos poucos, eu ia me acostumando com aquela nova vida, me acostumei com os carros de placas amarelas só com duas letras e quatro números. Até que um dia de repente, minha cabeça deu um estalo: Porra, bicho, eu estou em Santos, na Santos do desbunde dos anos 80, porra, então vou fazer tudo aquilo que eu quis fazer, mas que na época não podia! E essas coisas incluiam ir ao Festival da Lagosta no Cibus, tomar umas no Zum Fass, que para mim sempre teve uma aura misteriosa, comprar roupas nas butiques do Gonzaga. E como não poderia deixar, tomar um banana split no restaurante panorâmico do Eldorado. As minhas vontades se resumiam em comer e beber. Bom, nem sempre. Um dia eu fui à Livraria Antiquária e comprei uns livrinhos da coleção Vaga-Lume. Pura nostalgia. Tive vontade de cair na night com os boyzinhos e as cocotas, mas preferi a solidão do meu quarto.

Eu tinha que ter a coragem suficiente para me encontrar comigo mesma, e com os que fizeram parte da minha vida naquele momento. Quantas vezes desejei voltar no tempo e mudar os fatos e ter a vida que eu sempre quis, fazendo o que eu adorava, mas que por algum motivo eu nunca consegui? Desenhei uns rabiscos, fiz esquemas no papel timbrado do hotel, até que passou pela minha cabeça que a escola era o melhor jeito. Desci à recepção e perguntei se eles me podiam emprestar uma máquina de escrever. O recepcionista da noite — que era um sujeito bastante afetado — foi ao escritório e me entregou uma máquina portátil, com a única condição de que eu não fizesse barulho à noite; ele disse isso fazendo um biquinho e colocando o dedo em cima dos lábios. Dei-lhe uma gorjeta generosa. Voltei ao quarto e comecei a rascunhar um currículo. Coloquei um monte de Saint James' School in London; Holy Mary College in Manchester, um Colegio de Nuestra Señora não sei mais o quê, inventei uma sucessão de nomes de colégios em inglês e espanhol. Já que eu estava empolgada, até inventei um curso de psicologia infantil com a Anna Freud, em Londres. Pronto, em um instante eu era professora de idiomas, especializada em crianças. Ia me apresentar como professora fazendo um trabalho de campo, algo como o impacto da aprendizagem do idioma estrangeiro nas crianças brasileiras. Eu que odiava criança. Mas eu tinha que tentar. Era 1984, eles nunca iam saber se era verdade ou não. Se a internet já existisse, eu estaria mais preocupada, claro.

Na manhã seguinte, demorei umas quantas horas em datilografar todo o currículo com aquela máquina de escrever. Com o computador, a tabulação, paragráfos era tudo mais fácil. Finalmente, depois de umas quantas folhas de sulfite desperdiçadas, consegui concluir o meu impecável currículo. Coloquei-o dentro de uma pasta e fui em direção à Ponta da Praia. Peguei o 23 da CSTC e desci ali na Dino Bueno. Pelo caminho, vendo a orla da praia, o Museu de Pesca, o Mercado de Peixe, o ferryboat pela janela do ônibus, aquela sensação de déjà-vu constante, eu só esperava que aquilo não estragasse o meu plano. A ansiedade foi aumentando enquanto eu subia pela Cesar Lacerda de Vergueiro, vendo as antigas casas dos vizinhos, os predinhos de três andares de pastilhas multicoloridas ao lado dos opulentos sobrados. Um pouco antes de chegar ao colégio, pensei em recuar. Aquilo ia ser demais para mim. Mas já era tarde. Eu estava ali, bem em frente à minha antiga casa. Ao ver aquele sobrado imenso, com a fachada de mármore, o jardim frontal — sempre tão bem cuidado — e o portão de madeira talhada, comecei a chorar. Quantas vezes eu queria ter voltado ali, quantas vezes eu sonhei em estar ali mais uma vez e recuperar tudo aquilo. Que estranho, quando eu vivia ali, só pensava em quando poderia ter idade e meios suficentes para ir embora de uma vez. E quando consegui, tudo o que eu mais queria era voltar. Segurei o choro quando vi o Del Rey azul chegar e subir a rampa do portão. Quando abriu a porta do carro, dali saiu ela, a minha mãe. Estava extamente como nas fotos antigas. Se a Lady Di fosse brasileira, ela seria a minha mãe. O cabelo loiro liso, corte chanel, aquele vestido chemisiê cinza de listras, magra e elegante como ela foi um dia. E como não podia faltar, o batom vermelho. Ali estava ela, com a quase a mesma idade que eu tinha. E o tão diferente que éramos. Eu não sabia se sair correndo e abraçá-la ou se agarrá-la e dizer: olha pra mim, essa sou eu, a sua filha, que você tanto tentou proteger! Não tive tempo de fazer nada, ela entrou com o carro e desapareceu casa adentro.

O portão do colégio estava aberto. Assim que entrei, veio uma das irmãs perguntar o que eu queria. Não precisei fingir nenhum sotaque, depois de tantos anos morando no exterior, o português saía naturalmente estranho. Eu misturava palavras em inglês, português e espanhol, mas não de propósito. E para piorar as coisas, ainda gaguejei um pouco. A irmã recepcionista quis me despachar logo, mas devido à minha insistência ela me levou ao escritório da diretora. Mais relaxada, expliquei por que estava ali e o que eu queria fazer. A diretora do colégio me olhava intrigada, de braços cruzados. Quando terminei o discurso, a diretora respirou fundo e me lançou uma mirada inquisidora:

"Já temos as meninas do magistério que fazem atividades com os alunos da pré-escola."

"Desculpe, mas acho que a senhora não me entendeu. É um trabalho de campo experimental. Só preciso de uma hora ao dia, vou escolher um grupo de alunos aleatórios e vou fazer algumas atividades por algumas semanas, só isso — eu disse convencida. Até eu estava acreditando nas minhas histórias."

A diretora então me disse que eu poderia começar no dia seguinte. Combinamos algumas coisas e saí justo no momento em que os alunos da tarde começavam a entrar. E eu me vi formando fila, falando sem parar com a minha coleguinha japonesa, até que a professora me chamou a atenção e eu envergonhada baixei a cabeça. A diretora ainda me acompanhava e eu perguntei se ela me recomendava algum aluno, ela deu uma olhada rápida e apontou a mim mesma na fila: Aquela ali, a última. Um pouco inquieta, mas ótima.

Fui embora do colégio com um sorriso. Agora eu tinha que me virar e preparar as minhas supostas aulas de inglês. Fui às livrarias do Gonzaga buscar uns flash-cards, mas não encontrei nada. Assim que comprei umas revistas, cola, tesoura, canetinhas e cartolina colorida e passei o resto da tarde criando o meu material. Números, cores, animais, comidas, era tudo um pouco primitivo, mas era parte da pantomima que eu tinha que me sujeitar. Quando terminei, tive vontade de tomar umas, mas no dia seguinte eu tinha que começar algo importante, assim decidi ir até a Viena, comprei uns doces maravilhosos, voltei pro quarto e fiquei vendo televisão. Por sorte consegui ver um capítulo da Máfia no Brasil.

Cheguei meia hora mais cedo do previsto, não podia conter o meu nervosismo. Já não sabia como me comportar. A diretora ia me apresentar classe por classe, ia contar um pouco do meu trabalho e por que eu estava ali. De repente eu me virei e vi que eu chegava junto com a minha mãe. A diretora fez um sinal e a minha mãe e eu nos aproximamos. A diretora, então, me apresentou à minha própria mãe e a mim, tão pequena, com seis anos. Enquanto nos cumprimentamos, a minha mãe me olhou um pouco ressabiada e a diretora explicou por que eu estava ali. Eu sorri e a minha mãe sorriu de volta. Não sei se ela percebeu que aquela adulta era eu. Mais de trinta anos depois eu estava bastante diferente. Não dizem que as células do nosso corpo se renovam de tempos em tempos? Quem sabe eu já nem era a mesma. Mas eu não tinha tempo para mais divagações. Eu vi como eu mesma me olhava, aí eu me abaixei e perguntei:

"Tudo bem?"

Eu timidamente respondi:

"Tudo..."

Aquela menininha de seis anos, de cabelos curtos (não sei por que diabos a minha mãe insistia em cortar o meu cabelo com os dos meus irmãos, será que ela não percebia que eu estava horrorosa daquele jeito?), mais alta que a média e mais gorda que todos, não levantou o rosto para me olhar e só ficou olhando as minhas botas adidas de camurça rosa.

"Vamos aprender inglês?", tentei puxar conversa.

A diretora então me mandou pra fila e eu obedeci. A minha mãe se despediu. Como era elegante, alta, bem-arrumada, o cabelo loiro. Ah, se então eu soubesse as coisas que vim a saber depois! A tarde continuou bastante monótona, a diretora foi me apresentando classe por classe. Fosse aonde fosse os alunos me olhavam curiosos. Pouco fiz naquele dia.

A partir da manhã seguinte tudo começou. Comecei a dar as minhas aulas de inglês, que eram mais que nada uma redescoberta de mim mesma, das coisas que eu gostei um dia, daquela menininha que fui um dia. Eu ainda não tinha descoberto o rock, nem a literatura, nem as artes. Não sabia o que era o amor nem o sexo. Nem as desilusões nem as brigas. Tampouco sabia o que eram as drogas, leves, pesadas, lícitas ou ilícitas. Eu vivia no meu castelo, mas era como um bichinho aprendendo a viver, como aquelas tartaruguinhas que lutam para sair do ovo e cada passo na areia é uma vitória em direção ao mar. Isso sim, eu demonstrava grande habilidade com a memória e respondia tudo corretamente. Eu estava fascinada. Uma vez eu peguei um violão e tocamos alguns acordes, ah, eu tinha adorado! Eu passava as tardes na biblioteca do colégio, com aquele cheiro de madeira e papel velho entrando pelo nariz, preparando as minhas aulas. Às vezes, vinham alunos maiores e me perguntavam como era a vida no exterior, o que eu fazia, se eu tinha ido em tal lugar. Uma vez eu trouxe um pacotinho embrulhado com papel alumínio.

"Toma, professora, é bolo de chocolate. A minha mãe que fez."

Quase saltei da cadeira. Aceitei sem cerimônia. Era o famoso bolo de chocolate da minha mãe, aquele bolo delicioso, que desmanchava na boca, com aquela calda brilhante. Durante anos tentei reproduzir a mesma receita, mas nunca saía igual. Aquela tarde esperei até as seis quando viesse a minha mãe me buscar e assim eu poderia agradecer. Mas para a minha surpresa quem apareceu foi a minha avó. Ela sim, tive vontade de abraçar e pedir desculpas se nos últimos tempos eu tinha estado distante. Era uma sensação muito louca. Flashes daquela manhã fria de agosto, vinte anos depois, me vinham à cabeça. Ela acabava de partir. Eu só pude acenar de longe.

Naquela tarde, quando cheguei ao Gonzaga fui ao cinema. Eu já levava mais de um mês e era isso o que me estava faltando. Fui ao Cine Alhambra, para mim o cinema mais bonito que Santos já teve. Quem sabe alguém de alguma geração anterior diga outro, mas para mim, crescendo na época em que cresci, sim, era o mais bonito. A decoração, o ambiente, tudo me transportava à Andaluzia. Cheguei a tempo para a sessão das oito. Vi Paris, Texas. Quando saí do cinema, fui ao bar na esquina da Avenida Ana Costa com a Toletino Filgueiras e comprei fichas telefônicas. Tinha que fazer uma ligação para o exterior. Liguei para a minha casa em Madri, mas voz gravada da Telesp, me dizia que aquele número não existia. Marquei o número do meu companheiro, mas sem sucesso. O que eu ia fazer com a aquele monte de fichas telefônicas? Voltei ao bar e entreguei-as ao garçom. Caminhando pela Ana Costa, decidi que tinha já que terminar com tudo aquilo. Já no meu quarto, começei as fazer as malas, deixei apenas umas peças de roupas para os próximos dias.

Antes de ir ao colégio, fui à uma agência de viagens e comprei uma passagem de volta a Madri. Era já para o dia seguinte. Eu já não podia mais esperar. Teve coisas que eu não pude fazer, como entrar na minha antiga casa, mas que diabos, melhor assim. Quando cheguei ao colegio, disse à diretora que eu já estava terminando o meu trabalho e que aquele seria o meu último dia. Eu, pequena, não recebi tão bem a notícia. Às seis, quando veio a minha mãe me buscar eu me aproximei e disse que estava indo embora.

"Seja o que for, o que ela quiser ser na vida, deixe-a", foi a única coisa que eu consegui dizer, apesar de ter todo um discurso preparado na minha cabeça.

A minha mãe não respondeu nada. Eu me abaixei e me abracei:

"Bye bye, little girl! E nunca corte os bigodes do gato!"

Eu não parava de chorar. Saí do colégio ouvindo da minha mãe a promessa de me matricular em um curso de inglês. Eu já não queria mais continuar ali, toda aquela nostalgia me estava agoniando. Peguei um taxi e voltei para o hotel de onde não saí até a manhã seguinte.

Mais uma vez eu me encontrava num avião, mas dessa vez, eu estava na primeira classe. Drinques de boas-vindas, comida nouvelle-cuisine, tudo um luxo. Como sempre, depois do jantar, tomei um lormetazepam com o restinho do champagne. Acho que foram as oito horas de sono mais tranquilas da minha vida. Acordei com o café da manhã. Quando eu me preparava para comer, um homem alto, bem-vestido, se aproximou e me entregou um livro e uma caneta. Era uma edição em inglês do meu útlimo livro, Delírio de uma noite selvagem. Ele, sorridente, perguntou se eu podia lhe dar um autógráfo. Virei o livro e vi a minha foto na contracapa. Eu, com pose de femme fatale, e eu que odiava tirar fotos, com um vestido de leopardo que deixavam as minhas tatuagens à mostra e com uma guitarra rosa fluorescente. Que foto mais rídicula. Eu ri daquela foto tão ríducula, assinei o livro e o homem me agradeceu e foi de volta se sentar.

Em breve aterrisaríamos em Madri.



Juliana Rosano nasceu em Santos em 1978
e vive em Madrid há alguns anos.
Esse conto que vocês acabam de ler
é sua primeira colaboração para
LEVA UM CASAQUINHO.
Que venham muitas outras.
Seja bem-vinda.


3 comments:

  1. Muito legal! Viajei junto com a história! Que venham outros contos.

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  2. Que aventura Jules! Lindo demais! Fiquei aqui imaginando dona Olguinha jovem rsrsrs E o Alhambra deixou saudades mesmo <3

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  3. Jules,eu chorei com seu conto.Acho que o bolo de chocolate me fez lembrar de algo a que nunca dei a devida importância.Inbox volto a ser adulto e chato e falo sobre técnica literária (daquilo que eu sei até então,é claro).Bacanésimo!

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