Thursday, May 4, 2017

FÁBIO CAMPOS COMENTA "PATERSON", FILME DE JIM JARMUSCH, EM CARTAZ NA CIDADE



Existem alguns filmes que funcionam como uma espécie de detox para a overdose de cinema padronizado a que um fã de cinema é submetido. Não tenho nada contra o cinema comercial, pelo contrário, além de realmente apreciar um blockbuster, como filho de exibidor, não posso renegar o que me alimentou durante muito tempo. Mas essa padronização acaba nos levando a uma espécie de desejo padrão. Assim que a luz se apaga, já temos ideia do que o filme deve apresentar para nos satisfazer. Em muitos casos, acabamos renegando um filme que não apresenta todos aqueles elementos a que estamos acostumados.

Paterson, o novo filme de Jim Jarmusch, é um ótimo exemplo desse tipo de filme. Assisti ao filme sempre a espera de uma reviravolta, de algum feito heroico, ou de uma situação dramática aguda. Somente ao final, quando percebi que nada disso ocorreu, é que relaxei e parei pra pensar na beleza da simplicidade apresentada no filme. Também senti uma espécie de decepção na plateia, mesmo estando uma sala com programação voltada para o cinema mais alternativo.



No filme, Paterson, o ótimo Adam Driver, na sua melhor interpretação no cinema até agora, é um motorista de ônibus da cidade de Paterson, que nas horas vagas escreve poesia.

O filme é, literalmente, a compilação de uma semana de sua vida. Não há muito o que resumir, seus dias são praticamente iguais, acordar quase sempre na mesma hora (sem despertador), se despedir da esposa, ir trabalhar, voltar pra casa e levar o cachorro pra passear, sempre com uma parada no mesmo bar. Nos intervalos dessas atividades, Paterson escreve, num caderninho, poesias derivadas da sua observação do cotidiano.

A beleza do filme está justamente nessa simplicidade, na falta de ambição de Paterson, no seu aparente contentamento com a vida – alias, a coincidência do seu nome com o nome da cidade nos dá a sensação de que ele é ainda mais comum – e no desfile de personagens interessantes que atravessam o seu dia a dia.



Sua esposa Laura, a encantadora iraniana Golshifteh Farahani, é de uma enorme doçura, mas fica claro que é muito mais ambiciosa, como a maioria dos jovens. Sonha em se destacar, seja na arte, na culinária, na música – não por acaso todas obsessões modernas – servindo de contraste para acentuar ainda mais a falta de ambições do marido. Fica claro que Laura é o centro da vida de Paterson, aquela vida simples lhe basta, desde que possa encontra-la no final do dia e fazer a sua parada no bar, mas, mesmo assim, seu amor não é exagerado, não há necessidade de demonstrações extravagantes, ou de grandes esforços aparentes, somente aquele cuidado genuíno. Os frequentadores do bar rendem diálogos interessantes, além de alguns encontros esporádicos, que realçam a beleza do acaso, algumas vezes com uma divertida forcinha do diretor, para ressaltar alguma coisa.

Paterson é um lembrete de que a vida simples pode ter mais atrativos e ser mais agradável do que a nossa vida corrida nas metrópoles, sempre a procura de algo para nos destacarmos. Me parece também uma critica ao pedantismo nas artes, mostrando que a beleza e o talento podem nascer justamente da simplicidade.

É um filme bastante agradável, que não cansa, apesar das quase duas horas e da aparente simplicidade.



PATERSON
(2017, 118 minutos)

Roteiro, Produção e Direção
Jim Jarmuch

Música
Carter Logan

Elenco
Adam Driver
Golshifteh Farahani
Rizwan Manji
Trevor Parham
William Jackson Harper
Frank Harts
Barry Shabaka Henley
Method Man

em cartaz no Cinespaço Miramar Shopping
em sessão única às 18 horas

TERCEIRA SEMANA EM CARTAZ NA CIDADE





Fábio Campos convive com filmes
e com música desde que nasceu,
50 anos atrás.
Em seus textos sobre cinema,
Fábio se posiciona não como um crítico,
mas como um moviegoer esclarecido,
e seus comentários passam ao largo
da orbrigatoriedade da objetividade
que norteia a maioria dos resenhistas.
Fábio é colaborador contumaz
de LEVA UM CASAQUINHO.




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