Tuesday, March 20, 2018

TARCÍSIO LARA PUIATI, INVENTOR DE ESTILO (por Flávio Viegas Amoreira)



Ainda temos poesia de invenção, literatura de resistência, criação além de gêneros feita para remexer o lance de dados mallarmaico da linguagem. Leio e releio mais um livro dum poeta que precisa ser conhecido: Tarcísio Lara Puaiti, que nos oferece agora “Bagaceira”, reunião de poemas, poesia em prosa, “proesia” pela prestigiada 7 Letras Editora. Sem preocupação com pontuação, fluxo livre da inspiração balizada pela intelecção,  jorro carregado de plasticidade , imagética tutelada pela poemática em versos de acúmulos e ajuntamento. Poema longo ou epigramas sobrepostos? Importa a intersecção de perceptos, o nexo causal transverso entre algaritmos da imaginação passados pelo crivo da alta significação.




Tarcísio refaz a tradição de Whitman com o pensamento de Pound. Cacos depurados da memória, vestígios do dia reflexivos,  um tsunami de evocações intertextuais de artes, caleidoscópico inventário de coisas, fatos, textos lidos e vivenciados. O título faz juz ao dístico de Pound: “Poetas são antenas da raça”; - nessa trama lúdica de esponja e garimpo, Tarcísio nos revela miríades de seu universo cósmico-quântico. Sempre defino literatura como curtição da linguagem: curtição aqui em sua escala polissêmica: curtir por amar, devorar, re-significar, lapidar, afiar na consecução dum produto semiótico e artístico amplo em sua contenção do mundo. Chistes, oximoros, ecos de Jarry e Georges Perét? Vida mil modos de usar: um rol de sutilezas, insights poderosos, epifanias tranZmodernas: o cult e o trash,  eruditismos embalados em prosaico papel jornal. Ritmo tonitroante, sinapses feéricas, imagética estilhaçada, implosão do discurso: é o transe espelhar nosso caótico cotidiano. Poemas como se pintados por Francis Bacon tropical ou fotografado por Diane Arbus. Átimos existenciais, flashs do instante que passa, o devir etílico/gastronômico/epidérmico: sentimentalidades em estratos, etimologia da fugacidade, um orgasmo semiológico , morfemas compostos a deriva com propósito intrínseco.  Na desordem aparente existe uma ordem imanente:  leia “Bagaceira” com perícia de ornitólogo. Os poemas tem aí declives, há uma geologia nessas amarrações significadas por contigüidade encantada e osmose desdobrada. Onomatopéias hightechs, neologismos hipsters, neo-idioletos urbanóides, - exercício de interpretação da miríade de simbolismos grávidos por exegese. Me vem à mente “Exercícios de Estilo” de Raymond Queneau, - mas Tarcísio é profundamente brasileiro, gongórico para o tecnicismo do grupo do Oulipo....



O pitoresco na trajetória do autor é que esse experimentalista radical é teledramaturgo e uma das funções do meu pequeno ensaio é desconstruir essas dicotomias entre o erudito e o comercial. Wallace Stevens era banqueiro, T.S. Eliot executivo, Faulkner não escreveu para cinema? Os beatniks não foram tão televisivos? Gosto de quem destoa. Mas o que importa é a poética desse jovem gaucho nascido na mesma terra de Caio Fernando Abreu. Pela mesma 7 Letras lancei 5 livros na virada do século, sei da seriedade dessa casa editorial pelo empenho e densidade dos seus escritores. Exploro alguns trechos selecionados do livro, começando por um lindo verso drummondiano enriquecido por uma aliteração forte:

´quase num só momento quase
dois olhares acesos quase
orvalhos quase mangueiras do
jardim quase por fim quase
riso quase poemas iguais
quase meu anjinho quase
canto quase aroma quase
nuvens quase teu rosto quase
amor ´

[logo o poeta dá margem a um desbragado coloquialismo inventivo]
´pergunta você namorou com
caras maus resposta só um
pouquinho não vendemos
cerveja fiado por favor não
exista´

[num arroubo quase dadaísta lança mão de um enredo quase David Lynch cantado por Pitty]
´conserta-se disco voador
horário comercial uma
sequência de eventos
aleatórios passivo dotado com
cafuçu arranca-rabo salve a
cabocla jurema que nos deu a
proteção dorotéia desconfia
que homem misterioso seja
filho da condessa os dois
aboiavam no silêncio da noite
agora dormem´

[leitor de James Joyce e Guimarães Rosa,  Tarcísio não mimetiza, transpõe e atualiza a transliteração: até digitalizando o discurso encerra sem findar com essa pérola]
´#SomosTodosSertão´
 ´
Recomedo. Conheçam e leiam “Bagaceira”, desse nome que vai dar ainda mais o que falar como poeta:  Tarcísio Lara Puiati.



BAGACEIRA
Tarcísio Lara Puiati
Editora 7 Letras
R$29,00
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Poeta, contista e crítico literário,
Flávio Viegas Amoreira é das mais inventivas
vozes da Nova Literatura Brasileira
surgidas na virada do século: a ‘’Geração 00’’.
Utiliza forte experimentação formal
e inovação de conteúdos, alternando
gêneros diversos em sintaxe fragmentada.
Vem sendo estudado como uma das vozes
da pós-modernidade literária brasileira
em universidades americanas e européias.
Participante de movimentos culturais
e de fomento à leitura, é autor de livros como
Maralto (2002), A Biblioteca Submergida (2003),
Contogramas (2004) e Escorbuto, Cantos da Costa (2005).


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