Wednesday, May 2, 2018

26 DE ABRIL (por Flávio Viegas Amoreira)



25 DE ABRIL é um símbolo de liberdade universal tão expressivo quanto a poesia de Antero Quental,  o monumento literário que é a obra de Fernando Pessoa  ou o Prêmio Nobel de Saramago.  A revolução dos cravos inseriu Portugal no século XX, na modernidade e fez a civilização lusitana servir como farol de novo para todo mundo livre.  Como todo sonho surgido duma noite escura de 50 anos o movimento provocou tropeços por ansiedade e excessos pelo tanto de desejos reprimidos, mas vencidos erros do parto Portugal cumpriu seu destino cosmopolita novamente.  Em uma só primavera de 1974 o país viu florescer a modernização dos costumes,  a arrancada para a industrialização,  as possibilidades de se tornar uma nação européia integrada e uma democracia que serve de exemplo na tolerância, na inovação econômica e no resgate da auto-estima de sua gente.  Portugal que atrai turistas e imigrantes ao invés de exportar seus filhos começou em 25 de abril, - Portugal  do Mercado Comum ali também surgiu.... A descolonização era inevitável e poderia ter sido feita antes com maior sabedoria e integração com as ex-colônias... a França já tinha perdido a Argélia traumaticamente , antes tinha sido derrotada na Indochina onde a superpotência americana também iria perder milhares de vidas no recém fundado Vietnã:  como Portugal poderia manter um império sem forças diante da Guerra Fria?  Como um castelo de cartas foi-se Angola, Moçambique, Guiné, - mas a metrópole venceria por sua cultura,  seu espírito milenar, pelo idioma hoje sétima língua mais falada do planeta.  Hoje alguém nesse instante celebra o 25 de abril nas praias do Timor, nos bairros típicos de Macau,  nos rincões de Goa , estuda Fernando Pessoa em universidades canadenses,  traduz Camões em Harvard ou celebra a lusitanidade em Maputo.  Portugal hoje é um império da alma,  na forma de sentir  saudade, no modo lírico de encarar a vida, degustar o vinho e cantar o mar em qualquer porto onde tremule a Cruz de Malta.  A revolução que foi mesmo radicalmente uma mudanças de séculos em um dia ensinou que nada valem pão e ordem sem liberdade: que não importavam as ruas impecavelmente limpas de Lisboa sem alegria no rosto do povo e opressão , medo não com combinam com felicidade.  Portugal era uma ilha  medieval enquanto o homem chegava a lua.... 25 de abril tinha três bandeiras : Democracia, Descolonização, Desenvolvimento.  A democracia era tão necessária quanto a luz do sol, a Descolonização fato consumado, o Desenvolvimento que se vê hoje é decorrência desses 44 anos de experimento.  Portugal experimentou a ousadia, um socialismo errático, experimentou até a anarquia até encontrar o consenso entre bem estar social com as regras do mercado sem perder a imaginagação.  Portugal é hoje sensação , o queridinho de todas as juventudes inventivas do planeta porque investiu no experimento.  Hoje mesmo o governo exitoso  dum português de origem indiana é docemente chamado ´geringonça´ , um experimento que dá certo e fascina a Europa tão incerta em seus rumos .   O século XXI já é o tempo da criatividade e tecnologia:  Portugal é um milagre literário, um fenômeno poético , agora se prepara para ser o novo Vale do Silício europeu: a terra da internet , da digitalização,  da inteligência artificial, da robótica  ;- desde a China ‘a gênios da Califórnia investem e acreditam nessa simbiose entre a tradição desbravadora dos navegantes a qualidade de vida acolhedora de Lisboa passando pelo Douro até o Algarve como pólos dessa ousadia sócio-econômica que só os cravos fizeram desabrochar.  É preciso lembrar que antes do 25 de abril dizia-se que Portugal era dominado por três Fs:  Fé, Fado, Futebol.  Hoje como nunca a fé católica convive  lindamente com a pós-modernidade, o Futebol faz vibrar como nunca e o Fado se reinventou  com rock e bossa nova. Portugal vai muito além dos esteriótipos, dos clichês que posso afirmar que são muitos países dentro dum pais com apenas 10 milhões de habitantes.   A Síria hoje despedaçada criminosamente por uma guerra civil para derrubar um tirano é exemplo do que Portugal se livrou e soube superar:  derrubou com cravos em um dia de celebração e jubilo uma ditadura de 60 anos.  A democracia exige maturidade,  só a política mas muito bem feita é meio de construção de uma sociedade livre.  Que 25 de abril sirva de lição a nós filhos desse mesmo sentimento atlântico do mundo, nós brasileiros outra margem do Tejo infinito....





Poeta, contista e crítico literário,
Flávio Viegas Amoreira é das mais inventivas
vozes da Nova Literatura Brasileira
surgidas na virada do século: a ‘’Geração 00’’.
Utiliza forte experimentação formal
e inovação de conteúdos, alternando
gêneros diversos em sintaxe fragmentada.
Vem sendo estudado como uma das vozes
da pós-modernidade literária brasileira
em universidades americanas e européias.
Participante de movimentos culturais
e de fomento à leitura, é autor de livros como
Maralto (2002), A Biblioteca Submergida (2003),
Contogramas (2004) e Escorbuto, Cantos da Costa (2005).

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