Monday, September 21, 2015

DE VOLTA AO GRAU ZERO DA VELCROLÂNDIA (OU MEDO E DELÍRIO NO ILHA PORCHAT CLUBE)



Mudança é algo sempre muito cansativo. 

Estou sem trabalhar há quase duas semanas, capitaneando minha transferência para meu novo endereço e tentando fazer caber um apartamento enorme -- de 4 quartos, com varanda e o escambau -- dentro de um bem menor, de apenas dois quartos. 

O motivo da mudança é que estou ensaiando para me aposentar no início do ano que vem, e preciso desde já começar a me adequar a um padrão de vida menos oneroso. 

E como sempre tive vontade de morar num determinado condomínio da Ilha Porchat que conheci tempos atrás, numas festinhas babado fortíssimo, decidi que a hora era agora.


Nessas últimas semanas separei e encaixotei tudo o que iria levar de um apartamento para o outro: livros, discos, revistas, roupas, pastas antigas, albuns de fotos... enfim: a tralha que me acompanha pela vida afora.

 A seguir, reservei em um dos quartos os móveis e as tranqueiras que serão doadas para amigas e para instituições de caridade.

E então, já com as medidas no novo apartamento devidamente anotadas, saí pela minha "nova cidade" -- para quem não sabe, Santos e São Vicente são grudadas uma na outra -- comprando móveis novos que vou precisar e uns poucos eletrodomésticos que não vou poder levar de um apartamento para outro por não serem bivolt -- a rede elétrica em Santos funciona com 220 volts e a de São Vicente com 110 volts.

Na verdade, o que mais me preocupava nessa mudança era a dificuldade de acesso à Ilha Porchat, que é cheia de vias tortuosas e de ladeiras acima e abaixo. Duas empresas de mudança locais se negaram a subir a Ilha com um caminhão pesado de mudança. A saída, nada econômica, seria usar na mudança caminhonetes menores, em duas ou três viagens. Por sorte, o zelador do prédio de uma amiga tem um carreto e apresentou um orçamento não muito pesado para meu bolso que acabou tornando tudo bastante viável.



E então, eu me mudei. 

E tudo o que é meu já está aqui. 

Neste momento, ainda reina o caos.

Mais uns poucos dias e já devo conseguir me entender nesse novo espaço, até porque os móveis novos que comprei, adequados às dimensões desse novo apartamento, ainda não foram entregues.



A vista da minha sala é espetacular. 

Não vejo Santos e São Vicente da janela, apenas o Oceano Atlântico e os navios aguardando para atracar no maior Porto da América Latina.

É um espetáculo impressionante

E quem olhar a paisagem das janelas laterais vai custar a acreditar estar em São Vicente, pois a geografia peculiar da região fica meio difícil de identificar quando vista daqui.



Meu prédio é o último da Ilha e termina nas pedras, com uma piscina grande e uma área de recreação extensa com várias churrasqueiras. 

Quando a maré está baixa e o mar não muito arisco, é possível caminhar pelas pedras e tomar sol numa lage de pedra com o mar batendo por todos os lados.

Mas quando a maré está alta, aí nem pensar, pois as ondas explodem nas pedras com uma truculência espetacular, num espetáculo lindo de se ver, mas não muito de perto.



O motivo principal pelo qual queria vir morar aqui na Ilha Porchat remonta à minha adolescência e juventude. 

Costumava vir de Muzambinho para nosso apartamento na Praia dos Milionários com minha família, e frequentei muito, nos Anos 60 e 70, o então glorioso Ilha Porchat Clube. 

Meus pais eram sócios do Clube, daí eu passei alguns dos melhores momentos da minha adolescência por aqui, entre a Praia do Itararé e enorme piscina do Ilha. 

Era uma delícia, São Vicente era um balneário sofisticado na época, muito bem frequentado.

Não era decadente e semi-abandonado como é hoje.

Mas, mesmo decadente e semi-abandonado, continua tendo seu charme na arquitetura arrojada e na geografia que se combinam de forma muito peculiar.


Nos finais de semana, só se via carros importados caríssimos estacionados nos arredores do Clube. 

Meu pai, por exemplo, tinha um Impala 1966 enorme, que vinha feito um foguete pela Via Anhanguera e pela Via Anchieta, e mal cabia na garagem do prédio onde tínhamos apartamento. 

Como meus pais quase não saíam de carro quando vinham para cá, pois passavam o tempo todo nas rodadas de bridge no Clube, ele ficava sempre estacionado lá no fundão da garagem do prédio.

E eu, que logo percebi que ninguém circulava pelo fundão da garagem, comecei a usar tanto o banco da frente quanto o banco de trás daquele carro enorme como abatedouro.

Devorei impiedosamente -- e fui devorada impiedosamente também -- por meninas deliciosas que conhecia na praia e no Clube nessas brincadeiras na garagem do prédio. 

Dizer que era uma farra é pouco.



O Ilha Porchat Clube ainda existe hoje, mas está à beira da falência, graças à falta de bom senso de seus próprios associados, que mantiveram na presidência por mais de 30 anos um advogado paranaense meio maluco chamado Odárcio Ducci.

Odárcio deselitizou o Clube para tentar conquistar novos associados menos abastadeos, e para atingir seu objetivo tornou o Salão Principal do Clube palco de um programa de TV de gosto duvidoso inspirado na "Hora do Bolinha" da TV Bandeirantes.

Por mais que muitos associados não concordassem com os mandos e desmandos de Odárcio e com os descaminhos a que o Clube era submetido em suas gestões sucessivas, não havia nada a fazer em relação ao Programa de TV, que era totalmente bancado por um Plano de Saúde ligado à família de Odárcio.  

Bem ou mal, o Ilha Porchat Clube conseguiu se manter esses anos todos com a renda de festas como o Baile de Aleluia e a Festa dos Mares do Sul, além de bailes e shows de artistas meio derrubados que eram transmitidos pela TV, com o próprio Odárcio entrevistando as celebridades convidadas. 

Mas então, quando o tal plano de saúde decidiu não mais patrocinar as aventuras de Odárcio na TV, já era tarde demais: o Ilha Porchat Clube estava à beira da bancarrota. Dos mais de 10 mil associados que o clube tinha em seus quadros em 1975, restaram apenas 500 em 2013. 

Para piorar, o Ilha Porchat Clube foi processado pela Marinha por utilizar irregularmente uma área da praia pertencente à União. 

E para piorar mais ainda, foi obrigado 30 meses atrás a fechar todo o seu andar superior, por estar em desacordo com as normas estabelecidas pelo Corpo de Bombeiros -- isso depois do Incêndio naquela boate em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.



Hoje, o Ilha Porchat Clube está semi-abandonado.

 Conseguiram tirar Odárcio da presidência e provavelmente interná-lo em algum hospício, mas o estrago já está feito, e é enorme. A imensa maioria dos associados nunca mais voltou a frequentar o clube, e os restaurantes e as instalações seguem funcionando precariamente. 

Diz o novo presidente, com quem conversei ontem, que tem planos para resgatar o que for possível do glorioso passado do Ilha Porchat Clube. Disse ainda que estava aguardando para conversar durante o almoço com uma empresária carioca que tem um projeto para revitalizar o clube. 

Para minha surpresa, enquanto conversávamos, chegou a tal empresária carioca: era minha velha amiga Helô Pinheiro, que conheço de muitos e muitos carnavais -- alguns deles, acreditem, alí mesmo, no Ilha Porchat Clube.



Não vou entrar em detalhes do meu passado com Helô, até porque somos muito amigas e eu jamais seria indiscreta e leviana com ela -- que é uma celebridade internacional, mãe de três lindas meninas e muito bem casada.

Mas vou contar um episódio que rolou numa Noite nos Mares do Sul, quando conheci uma louca varrida maravilhosa na mesa de Helô, muito amiga dela, que me encantou de imediato. 

Seu nome era Morgana. 

Seu sobrenome, não vou revelar, mas posso assegurar que era uma das grandes locomotivas da sociedade paulistana dos Anos 70.



Morgana e eu começamos a nos beijar e a rolar nas areias do Itararé, depois fugimos para São Paulo no Mercury Cougar 1972 de seu marido, que ficou enchendo a cara na festa, aí embarcamos no jatinho da empresa dele em Congonhas e acordamos no dia seguinte numa ressaca infernal em Punta Del Leste, onde nos hospedamos num hotel luxuosíssimo à beira mar por mais de uma semana.

 Quando voltamos, ela me apresentou ao marido e explicou a ele que nós duas estávamos namorando. Ele disse, tranquilamente, com um copo de whisky na mão: "Então traga-a para dentro de casa, pois não quero ter que subornar colunistas sociais com viagens para o exterior para que não escrevam comentários sobre sua vida sexual".

Resultado: fiquei morando com Morgana naquele palácio espetacular no Jardim Europa por quase um ano. Éramos hedonístas implacáveis e incansáveis. Cozinhávamos e fodíamos o dia inteiro. Rolava de tudo. Helô veio nos visitar várias vezes, mas sempre fugia quando sentia que o bicho ia pegar. Era uma pândega. Embarquei em muitos ménages à trois, ménages à quatre, e ménages à cinq com o marido de Morgana e algumas mulheres exuberantes que trazia para dentro de casa. 

Meu romance com Morgana acabou quando decidi fugir da casa com uma das namoradinhas do marido dela para Miami.


Ver Helô depois de todos esses anos foi uma surpresa. Ela fez a maior festa quando me viu. Disse que eu não mudei nada. Eu disse o mesmo dela. 

Mas é tudo mentira, claro! Helô é uma mulher exuberante de 70 anos de idade. Eu sou apenas uma mulher conservada de 69 anos, nada além disso. 

Contei a ela que acabara de mudar para a Ilha Porchat. Foi quando fiquei sabendo que ela tem um apartamento no mesmo prédio que eu, só para finais de semana. Mas nem ela e nem suas filhas vem aqui faz tempo. 

Disse que estava no Ilha Porchat Clube a trabalho, e gostaria de me encontrar mais tarde em algum lugar longe dalí.



Propus que jantássemos juntas no bom e velho Restaurante Mar de Plata na Ponta da Praia, que prepara um Arroz de Polvo divino.

Helô sorriu e disse: "a-ha... então você ainda lembra daqueles almoços com Arroz de Polvo que fazíamos na velha mansão, não?"

Foi um jantar delicioso.

O Restaurante Mar Del Plata (Av. Almirante Saldanha da Gama, 137-139, Santos, Telefone: (13)3261-4253) está no mesmo lugar de sempre, só que completamente reformado.

E continua ótimo depois de todos esses anos, com atendimento de primeira, comida deliciosa e preços tradicionalmente salgados.



Tivemos uma noite maravilhosa depois do jantar lá no apartamento dela, que é vizinho ao meu, já que o meu está uma bagunça.

 Para um apartamento que está fechado há tempos, recebendo a visita de uma faxineira a cada mês, até que estava tudo em ordem.

Trocamos inconfidências, passamos os últimos 25 anos a limpo, assistimos "Verdades Secretas" juntas e nos divertimos um bocado, como só mesmo duas companheiras de geração que já viveram de tudo são capazes.

E não adianta espremer, pois isso é tudo o que vou contar.



Agora, nesse exato momento, eu estou sozinha com meu tablet comendo uma porção de provolone e bebendo uma Piña Colada numa mesa do Terraço Chopp (Alameda Ari Barroso, 274, Ilha Porchat, tel: (13) 3468-7527) enquanto aproveito o wi-fi da casa, já que o do meu apartamento ainda não está instalado.

 Para minha surpresa, ao checar meus emails, vejo um de Helô, dizendo: "Oi querida, encontrei hoje com com Morgana no Pilates, disse que estive com você e ela está louca prá te ver. Só tem um problema: ela está pobre. Mas, tirando esse pequeno detalhe, está ótima, como sempre. Pediu para perguntar se você tem como hospedá-la aí no seu novo apartamento um final de semana desses. Beijos, Helô"



Lembrei então de um Dia 22 de Junho em que Morgana e eu saímos pela Avenida Paulista usando vestidos curtos bem cavados nos ombros, sem soutien e sem calcinha, comemorando o No Panty Day -- que hoje é uma data popular entre a mulherada, mas 25 anos atrás não era ainda.

Nós duas circulamos prá lá e para cá, desde o Riviera até o antigo Wells da Brigadeiro Luis Antonio expondo incidentalmente nossas bucetinhas, bundinhas e peitinhos para aquela gente triste que circula burocraticamente pela Paulista em horário de trabalho.

Nosso ato final no No Panty Day que só nós duas comemorávamos consistia em sentarmos de pernas abertas num banquinho debaixo do vão central do MASP e nos masturbarmos mutuamente enquanto contemplávamos a Avenida Nove de Julho e as rotas para o Centro da Cidade diante de nós. 

Morgana urrava, gargalhando: "Vá se foder, São Paulo, não é você que vai determinar como devo me comportar! Eu faço o que eu quero!" E chegávamos ao orgasmo juntas, às gargalhadas.

 Pois prepare-se, Ju Cartwright: 
seu passado a espera novamente.



JUREMA CARTWRIGHT 
escreve sobre lesbianismo 
e alta e baixa gastronomia 
segunda sim, segunda não, 
em LEVA UM CASAQUINHO

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