Wednesday, September 16, 2015

SAUDAMOS OS 45 ANOS DO PROGRAMA FLÁVIO CAVALCANTI, E DETONAMOS GONZAGUINHA.



O cantor e compositor Luiz Gonzaga Jr. -- aka Gonzaguinha --- era um chato incorrigível. 

Apesar de ser filho de um grande popstar, não nasceu em berço de ouro. Como seu pai era casado no Nordeste, e sua mãe era cantora no Rio de Janeiro, ele teve uma criação bem humilde num morro na Zona Norte do Rio. De de tempos em tempos, recebia visitas do pai, por quem nutria uma relação de amor e ódio, e que estava sempre circulando pelo Brasil fazendo shows e encantando multidões. 

Luiz Gonzaga Jr. começou a compor canções aos 14 anos de idade.

Curiosamente, o primeiro cantor a gravá-las foi seu próprio pai, por volta de 1967.



Teve um início de carreira muito interessante e promissor, que produziu quatro LPs relativamente bons entre 1973 e 1976. Mas começou a não conseguir mais manter seu padrão de qualidade nas composições a partir do quinto disco -- sintomaticamente, o primeiro em que assinou como Gonzaguinha e não como Luis Conzaga Jr. 

De "Moleque Gonzaguinha" em diante, ele desistiu de tentar seguir os passos de Milton Nascimento e Lô Borges e passou a apostar suas fichas em sambinhas insossos com lições de moral nos refrões e em boleros corriqueiros repletos de rimas fáceis, um mais constrangedor que o outro. 

Artista popular de porte mediano -- e põe mediano nisso --, Gonzaguinha tornou-se imensamente popular no Brasil de uma hora para outra por conta de seu envolvimento com setores de esquerda durante o processo de Abertura do Governo J B Figueiredo. 

Sua popularidade era um mistério para muitos -- entre os quais, me incluo --, já que cantava muito mal, era extremamente carrancudo e incapaz de esboçar um sorriso. 

Quando morreu, num acidente de carro em 1991, sua carreira já estava em franca decadência e suas canções não tinham mais o apelo popular de antes. A própria EMI-Odeon, sua gravadora, numa negociação contratual que não se resolvia de forma alguma, não hesitou em abrir mão de seu passe, levando-o a tornar-se um artista independente nos últimos anos de carreira. 

Os tempos eram outros. Os milicos não eram mais os inimigos. O inimigo agora era Fernando Collor, democraticamente eleito, que abraçava as duplas sertanejas em busca de apoio popular para tentar minimizar as bordoadas que levava de roqueiros como Lobão em canções como "Presidente Mauricinho". 

Detalhe: nenhum medalhão da MPB ousava se posicionar contra ou a favor de Collor na época. Só fizeram isso quando ele caiu do poder. Estava mais do que claro que os medalhões da MPB haviam envelhecido irremediavelmente, e não havia mais um futuro brilhante para eles.


Enfim, Gonzaguinha era um chato, sua música era de segunda e sua morte não deixou nenhuma grande lacuna na música brasileira. 

Pelo contrário: ajudou a colocar um ponto final numa das vertentes mais frouxas e numa das obras mais desimportantes da história recente da música popular brasileira. 

Daí, não deixa de ser sintomático ver tantos comentaristas simpatizantes do PT e de Dilma Rousseff saudando o aniversário de 70 de nascimento de Gonzaguinha. 

Todos os que choram por Dilma hoje vão acertar em cheio se usarem como trilha sonora qualquer uma das "canções politicamente conscientes" do filho nada sorridente do grande Luiz Gonzaga.


Daí, eu me lembrei de um momento pitoresco do início de carreira de Gonzaguinha, que remonta à minha adolescência de baby-boomer diante de um aperelho de TV ligado. 

Em 1973, logo após lançar seu primeiro LP, ele submeteu sua canção "Comportamento Geral" ao júri do quadro "Um Instante, Maestro" do "Programa Flávio Cavalcanti", na TV Tupi. 

Este júri era composto por personalidades cariocas como Marisa Urban e Márcia de Windsor, além do maestro Erlon Chaves, do figurinista Dener, do mulatólogo Oswaldo Sargentelli e da então ex-Miss Brasil e deusa do sexo absoluta Vera Fischer.

Bastou Gonzaguinha cantar sua canção emburrada para que todos no júri torcessem o nariz para o baixíssimo astral da canção -- com excessão, claro, de Márcia de Windsor, que, como de hábito, deu Nota 10 para a música. 

Gonzaguinha saiu extremamente irritado do palco, resmungando "vocês merecem...", frase que fazia parte do refrão da canção. 

Foi tão desagradável com a equipe do programa Flávio Cavalcanti que o Brasil inteiro não conseguiu esquecer sua descompostura "ao vivo via Embratel".

 E muito menos perdoá-lo, fazendo de seu primeiro LP um encalhe instantâneo nas lojas de discos de todos os cantos do país onde o "Programa Flávio Cavalcanti" tinha alguma audiência.



É por essas e outras que eu, Odorico Azeitona, ao invés de celebrar os 70 de nascimento de Luis Gonzaga Jr, prefiro lembrar que há exatos 45 anos a TV Tupi levava ao ar o "Programa Flávio Cavalcanti", um show noturno sofisticado para a época.

Que era apresentado por um conservador esclarecido que conseguia a proeza de ser odiado tanto pelos militares que detinham o poder quanto pela esquerda que conspirava contra o regime militar.

Flávio Cavalcanti podia até ser tão chato quanto Gonzaguinha, mas Flávio ao menos sabia sorrir e se vestir que nem gente. Convenhamos: Gonzaguinha parecia um indigente com aquela barba eternamente por fazer e aqueles figurinos de flajelado que insistia em usar.

Em 1986, Flávio teve um AVC isquêmico em pleno palco do SBT logo após chamar dizer a frase "Nossos comerciais, por favor". Sua morte comoveu o Brasil. Por determinação de Sílvio Santos, o SBT permaneceu fora do ar durante todo o tempo em que durou seu velório.

Praticamente, toda a comunidade artística popular lamentou profundamente sua saída de cena. 

Só alguns poucos, como Luiz Gonzaga Jr., optaram por não se manifestar.




Odorico Azeitona passou boa parte 
dos Anos 1970 assistindo TV 
e tem uma memória de elefante.
 Escreve todas as quartas 
para LEVA UM CASAQUINHO



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