Wednesday, July 13, 2016

O FLAUTISTA RUSSO (por Carlão Bittencourt)


Se você quiser civilizar um homem,
comece pela avó dele
(Victor Hugo)



Começo dos anos setenta, São Paulo. O Brasil oficial estava cada dia mais distante do povo brasileiro. A ditadura não dava vida fácil a ninguém. E a coisa ainda iria piorar. Muito.

Qual o Bebê de Rosemary, após longa gestação nas entranhas do poder, o nascimento do AI-5 anunciou a chegada dos anti-cristos para assombrar o país. Fardados ou paisanos. Tempos duros. Sair à rua sem documentos era correr um alto risco. De vida.

O rapaz magro, barbudo e cabeludo, deixou calmamente a boate Zibuca, em frente ao Cemitério da Consolação, no Centro, como fazia todos os dias. Eram cinco horas da manhã. Na mão esquerda, levava a caixa preta com a flauta alemã, seu ganha-pão. Era músico. Tocava na noite.

Parou junto ao meio-fio, acendeu o cigarro e fez sinal para um táxi mirim*. O motorista parou. O passageiro entrou, anunciando seu destino: Santo Antonio com 13 de maio. O táxi partiu.

Dimitry sentiu um calafrio com o vento gelado que soprava pela janela. Encolheu-se no banco do carro. Abotoou o casaco até em cima. Outro cigarro. Para esquentar.

As ruas estavam desertas, úmidas pelo orvalho. Terra da Garoa, Demônios da Garoa. Por brincadeira, associou as duas coisas: a névoa da cidade com o conjunto musical. E, por admiração, o nome do grupo musical com Adoniran Barbosa. Pensou em “Bom dia, tristeza”, parceria deste com Vinicius de Moraes. Linda e sofrida. Como a grande cidade.

São Paulo que amanhece trabalhando. O táxi andava rápido. O motorista, um negro gordo, cruzava com facilidade as ruas do velho Bixiga. Em poucos minutos, estavam na rua Santo Antonio. Vazia, tal e qual a cidade que acordava.

De repente, o carro freou, interrompendo os pensamentos do músico. Era uma blitz do glorioso exército brasileiro, algo que vinha se tornando cada vez mais comum.

O carro foi cercado por soldados. Dois fuzis espiaram perigosamente pelas janelas. Por trás deles, os olhos dos jovens soldados revelavam medo. Que perigo!

O passageiro ficou estático. O motorista pálido, cor de cera. E para sempre teriam ficado naquela posição, se a voz autoritária do sargento não quebrasse o silêncio.

"É cana dura! Documento..."

Com o cano da arma a um palmo do nariz, o negro nem se mexeu. No banco de trás, o músico tentou pegar a carteira no bolso da calça.

"Quieto aí, barbudinho!"

Pânico. O rapaz se assustou com o grito do militar e, mais ainda, com a enorme pistola automática calibre 45. Pensou na esposa grávida, Mirtes, em casa, à sua espera, sozinha. Depois pôde balbuciar apenas:

"Eu vou pegar a carteira..."

O sargento gostava de exercer o poder. E a ironia. Mandou a ordem:

"Então pega, mas não vai se cagar de medo, hein???"

Finalmente, ele conseguiu tirar a maldita carteira do bolso e entregar pela janela. Mal viu o RG, o milico gritou:

"Dimitri Petroff??? Isso é nome de comunista. Desce, russo escroto! Teje preso!!!"

Que fazer. Dimitri estava quase fora do carro quando pensou na flauta. Virou de costas e pegou a caixa, escura e comprida. Ia descer quando o sargento deu um salto para trás, caindo sobre um dos joelhos, em posição de tiro. O milico urrou:

"Parado!!! Que merda é essa na tua mão???"

Dimitri sussurrou:

"É a minha flauta. Eu sou músico."

O sargento foi se aproximando, a arma segura pelas duas mãos. Comandou:

"Músico, o caralho! Pra mim tu é comuna. Comuna e viado! Dá essa porra aqui!!!"

Só faltou o esquadrão anti bombas. Além do sargento, eram mais de 10 soldados em volta da misteriosa caixa preta. Abriram. Dentro, a última coisa que esperavam encontrar: uma flauta.

Mas o milico era queixo-duro. Após uma noite inteira de batidas pela cidade, o perverso ainda não tinha descido a borracha em ninguém. Estava frustrado, com sede de sangue, fissurado para praticar o mal. Mandou outra ordem:

"Quer dizer que o senhor é músico, não é, Seu Dimitri??? Pois, então, toca! Toca, senão dança!!!"

E estendeu a caixa para o rapaz.

Com as mãos trêmulas, Dimitri Petroff montou a flauta transversal e colou-a aos lábios, secos de terror. Em seguida, executou a melhor interpretação de “Carinhoso” de toda sua vida.

Nem Pixinguinha tocaria melhor.


Carlão Bittencourt
é redator publicitário
e cronista.
É autor de
"Pela Sete - Breves Histórias do Pano Verde"
(2003, Editora Codex),
um mergulho no universo
dos salões de bilhar de São Paulo
e escreve todas as quartas
em LEVA UM CASAQUINHO.








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