Skip to main content

O PAPA É ARGENTINO E DEUS É BRASILEIRO. ISSO EXPLICA A CRISE DA IGREJA



Há cerca de 2 meses, um comercial da Igreja foi recusado por uma rede de cinemas da Inglaterra. Num país de maioria católica, a repercussão, como era de se esperar, foi enorme e a polêmica tomou conta dos jornais e especialmente das redes sociais.

O vídeo (acesse o link e assista) mostra homens e mulheres, de idades e lugares diferentes, apenas rezando o pai nosso. E no final, o conceito “Prayer is for everyone”, algo como “oração é para todos”. Encerrando com a assinatura da Igreja da Inglaterra.

A Digital Cinema Midia, rede que recusou a peça, justificou a atitude com desembaraço: “Não aceitamos divulgar material de conotação política ou religiosa, está em nosso regulamento. E também respeitamos todas as crenças ou a descrença do nosso público.”

Mas a reação foi implacável: os cristãos engrossaram suas veias do pescoço para pregar uma suposta perseguição da elite intelectual; o alto clero se mostrou constrangido com a decisão da empresa, especialmente porque a campanha seria exibida na época da celebração do nascimento de Jesus e, nas redes sociais, nichos radicais tentaram boicotar a rede de cinema, como se ela fosse uma exclusividade dos católicos.

Alto lá! E a democracia religiosa, como fica? Será que os milhões de muçulmanos que vivem no Reino Unido curtiriam a mensagem? E as centenas de milhares de ateus e agnósticos, será que não se engasgariam com o chá das 5 tentando zapear o canal na TV?

Muitos diriam que a liberdade de comunicação e expressão deve ser ampla e que o povo tem que ter discernimento para “consumir ou não” uma mensagem como essa. Mas será que os católicos se sentiriam à vontade se os cinemas exibissem uma oração muçulmana?

Me desculpem, mas a mídia tem que ser muito responsável quando o assunto é política ou religião. O povo, em geral, tem pouquíssimo critério para ter uma avaliação razoável em relação ao assédio persuasivo dessas instituições.

A Igreja da Inglaterra, que passa por um período delicado de perda de fieis e fechamento de templos, criou a campanha na tentativa de fisgar o público jovem que ainda não decidiu qual caminho ideológico deve seguir.

Mas não é com um slogan como “oração é para todos” que eles vão conseguir o seu intento. Até porque oração não é para todos. Assim como ceticismo não é para todos. Assim como um ritual afro religioso não é para todos. A igreja tem que acabar de vez com essa mania de achar que ela representa a verdade absoluta, mesmo correndo o risco de parecer patética ao renegar o evolucionismo e outras lógicas científicas. Ter um papa moderninho é muito pouco para mudar esse quadro sombrio.

O comercial do “Pai Nosso” foi recusado em dezembro de 2015. Casualmente na época em que o doloroso “Spotlight” entrava em cartaz nos mesmos cinemas.

A cúpula da igreja deve estar agora reunida numa grande sala, traçando dezenas de estratégias para seduzir novos fieis e recuperar o prestígio... talvez uma sessão de Monty Python seja mais inspirador.





Antonio Luiz Nilo nasceu em Santos
e é redator publicitário
e diretor de criação
há quase 30 anos,
com prêmios nacionais e internacionais.
Circulou a trabalho por todo o país,
com paradas prolongadas em
Brasília, Belo Horizonte e Salvador.
Publicou em 1986
"Poemas de Duas Gerações"
e, mais recentemente, o romance
"Ascensão e Queda de Pedro Pluma"
(disponível para venda em alnilo@gmail.com).
Além disso, atuou como cronista
para o diário Correio da Bahia.
De volta a Santos desde 2013,
Antonio segue sua trajetória
cuidando de Projetos Especiais
na Fenômeno Propaganda
e como sócio-diretor
da Agência de Textos
TP Texto Profissional.



Comments

Popular posts from this blog

VINGANÇA (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.

A SURRA DE PICA QUE MEU IRMÃO DE DEU (um conto devasso de Emmanuelle Almada)

Meu nome é Sara e sempre fui uma menina muito caseira. Morava em um sítio no interior do Rio Grande do sul, e levava uma vidinha bem pacata. Cedo pela manhã eu tirava leite das vacas, alimentava os animais e fazia comida para meu pai e meus irmãos: um de 12 e outro de 14 anos. Sempre cuidei deles. Minha mãe morreu quando ainda eram muito pequenos, e eu assumi as responsabilidades da casa, mesmo sendo ainda uma menina. Nossa casa ficava longe da cidade mais próxima e para mim era praticamente impossível sair de lá para fazer qualquer coisa, daí vivia praticamente confinada naquele lugar. Meu pai é que saía, às vezes acompanhado por um dos meus irmãos, para levar leite para alguns mercadinhos da cidade, e passavam o dia inteiro fora. Eu ficava em casa cuidando do meu irmão menor, que era muito apegado a mim, me seguia onde quer que eu fosse. Era um menino franzino, de pele pálida e cabelos lisos, negros. Eu admirava a ingenuidade daquele anjo, sempre muito prestativo e car...

DOMADA PELO SEXO (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.