Em Rio Grande, nas imediações da rua onde morávamos, eram poucos os guris que tinham bicicleta, e mais raros ainda os que se dispunham a emprestá-la. Assim, meu irmão e eu decidimos juntar dinheiro pra comprar uma. Economizar a grana do cinema era pouco. A nossa casa tinha um grande quintal com abacateiros, araçás, bananeiras, caquizeiros, figueiras, limoeiros, pitangueiras e até uma parreira seca e um galinheiro desativado. Em vez do jardineiro capinar e limpar o terreno, comecei a me ocupar desses serviços e meu pai me pagava. Três vezes por semana, eu também engraxava os coturnos e polia a fivela dourada do cinto do seu fardamento. Meu pai me gratificava por isso também. Íamos à loja com frequência verificar se a nossa bicicleta ainda estava lá. O vendedor puxava conversa: “Tão conseguindo juntar?” “Sim, mas será que demora?” “Seria mais fácil se o pai de vocês comprasse a bicicleta e depois vocês pagassem pra ele.” “O meu pai diz que não tem dinheiro.” “E o avô?”...
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