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Showing posts with the label Baú de Ossos

O MACHO NA MINHA CAMA (por Marcus Vinícius Batista)

Não sei a data precisa. Acho até melhor porque seria mais uma forma de cristalização na memória, com chances reais de traumas. Numa noite dessas, eu e minha mulher Beth tínhamos acabado de deitar, estávamos naquele sono inicial, com o sinal de alerta no botão mínimo, quando senti os pelos dele roçarem na minha perna. Minha mulher não era. Beth nunca precisou depilar as pernas. Levei alguns segundos para processar a informação. Meu filho não era também. Vini não estava em casa e, com sete anos, seria impossível que eu não tivesse notado um garoto-lobisomem como herdeiro. Vini ainda tem aquela pele de nenê. O sujeito subiu mais um pouco na cama. Esfregou-se em mim e se encaixou ao lado do meu quadril. Tentava achar um canto entre eu e Beth. Criança entre os pais a esta altura da paternidade? Eu e Beth não tivemos filhos. Meus dois eram grandes já, e não gostavam de dormir entre a gente. Ainda bem. Preferiam o espaço deles. Uns minutos depois, o visitante resolveu se ...

POEMINHA DE SEGUNDA (por Pedro Nava)

O DEFUNTO por PEDRO NAVA Quando morto estiver meu corpo, Evitem os inúteis disfarces, Os disfarces com que os vivos, Só por piedade consigo, Procuram apagar no Morto O grande castigo da Morte. Não quero caixão de verniz Nem os ramalhetes distintos, Os superfinos candelabros E as discretas decorações. Quero a morte com mau-gosto! Dêem-me coroas de pano, Angustiosas flores de pano, Enormes coroas maciças, Como enorme salva-vidas, Com fitas negras pendentes. E descubram bem minha cara: Que a vejam bem os amigos. Que não a esqueçam os amigos Que ela ponha nos seus espíritos A incerteza, o pavor, o pasmo. E a cada um leve bem nítida A idéia da própria morte. Descubram bem esta cara! Descubram bem estas mãos Não se esqueçam destas mãos! Meus amigos, olhem as mãos! Onde andaram, que fizeram, Em que sexos demoraram Seus sabidos quirodáctilos? Foram nelas esboçados Todos os gestos malditos: Até os furtos f...

BOFETADA DO PASSADO RESGATA UMA ENTREVISTA DE 1983 COM PEDRO NAVA

- Seu plano inicial era escrever todas as memórias em cinco volumes. Agora já anuncia o sétimo, Cera das almas, em preparo, A obra dominou o autor? Meu plano inicial não era escrever cinco volumes: eu queria escrever um livro de lembranças familiares, de fatos que eu conheci mas meus irmãos ignoravam. Seria um livro clandestino, pra correr dentro da família. Os originais eu dei pra ler ao Fernando Sabino, ao Otto Lara Resende e ao Drummond, e a opinião deles foi que eu deveria continuar no mesmo tom, escrevendo as minhas memórias. Foi o que aconteceu. Assim, o roteiro é que domina o autor: ele escreve um roteiro pensando que vi fica preso àqueles trilhos, mas a coisa começa a ter uma porção de desvios, uma porção de outras saídas, de modo que o roteiro não é motivo de contenção, mas de expansão para o autor. Foi o que ocorreu comigo: eu pretendia escrever um livro de lembranças familiares, acabei escrevendo, até o momento seis volumes – que são grandes, de trezentas a quinhentas ...